O problema não é os transgênicos

Foto de Stuart Caie

Hoje li um artigo elogiando alimentos transgênicos*. Quais minhas objeções científicas sobre a questão? Nenhumas.

O artigo foi escrito por um universitário entendido e publicado no Universo Racionalista (site sobre ciência muito bom e também de Franca-SP: cidade sede da maioria dos escritores do DeMinuto). Normalmente, protestam contra os transgênicos porque supostamente fazem mal à saúde. Do ponto de vista do autor do artigo e da comunidade científica, os alimentos geneticamente modificados são benéficos, pelo menos por enquanto. De fato. Eu não questiono nada disso. E mesmo que não fossem tão bons assim… Para quem belisca panceta, bacon e Doritos de vez em quando, transgênicos não são uma grande preocupação a princípio. E olha que não tomo mais refrigerante 😀

Mas eu tenho objeções de ordem política sobre os transgênicos: depois de modificar a genética de uma semente, deixando-a mais resistente a agrotóxicos ou pragas etc, as empresas patenteiam essa semente. E começam a fornecer para vários países adquirindo, na prática, um monopólio. As vantagens fiscais etc dessas empresas são tantas, que o produtor comum não resiste. Obviamente, conseguem essas vantagens financiando campanhas e ganhando crédito com políticos (bancada ruralista, normalmente). Maquinando o Estado, como toda grande e boa empresa faz.

E assim essas empresas, como  a Monsanto, Nestlé, WalMart p. ex., adentraram mercados com toda força, controlando 90% do comércio de grãos do mundo!, tudo fundamentado na maior qualidade do produto. E os produtores não podem produzir as sementes por si só depois da compra. Eles verificam as plantações daqueles que não compraram os grãos com eles, por uma espécie de polícia agrícola. Se, em determinada safra, alguém está com uma plantação oriunda de sementes que eles modificaram, mas que não comprou deles, leva processo.

É uma situação delicada, porque as empresas têm direito de fazê-lo. No lugar delas, eu faria tudo igual: defender a sua invenção.

Mas cá entre nós, não é perturbador pensar que o número dos fornecedores de 90% das sementes do mundo que dão origem ao nosso prato de comida não passa de 6?

Meu caro leitor, somos dependentes dessas empresas para comer. Longe de mim conspirar um controle da comida ou que vão chantagear as milhões de bocas que delas se alimentam (apesar de não duvidar de que o fariam). Estou me referindo ao monopólio. As vantagens políticas dessas empresas não são monopólios camuflados? Na minha opinião são. Além de ser injusto com a concorrência, só traz concentração de renda, além de ser reprovável do ponto de vista econômico tanto quando cartéis.

Então qual solução você propõe, Tiago? Quebra de patente. Fizeram isso com remédios da AIDS e acho justo. Mas que  absurdo, vai tirar o incentivo dos laboratórios desenvolverem novas sementes etc etc. Dos laboratórios privados sim. Mas as universidades públicas estão aí para quê? Para serem instrumentalizadas a favor do país. Investir em laboratórios voltados para isso sai mais barato que as vantagens fiscais milionárias de contratos de anos e anos. Além disso, essas empresas levam o grande lucro para outros países, nos deixando dependentes e no prejuízo.

São só devaneios de um estudante amante de política. Tudo isso é, e eu sei que sim, muito mais complexo do que eu fiz parecer, mas, a exemplo dessas empresas, não me custa lançar a semente… Enquanto passa o tempo para descobrirmos como vai acabar essa história, tragam-me Doritos. Daquele transgênico, por favor.

 

* me refiro aos alimentos geneticamente modificados que são mais resistentes a pragas ou que podem receber mais agrotóxicos, pois os absorvem em menor quantidade.