A Fábula de Tícero e Lica – Os Pássaros do Amor

Crédito: Guillaume Speurt

Tícero era um pássaro muito bonito: com envergadura invejável e belas asas azuis ele conseguia voar por grandes distâncias, conseguindo assim boa comida e grandes aventuras com seu bando. Tícero, no entanto, agora estava na escola de voo do exército, que ficava muito longe de sua casa nas colinas. Ele foi convocado pelos grandes chefes para estudar e aprender os segredos da guerra porque viram nele muito potencial — seu tamanho, porte físico e inteligência.

Tícero acostumou-se a viver longe de seus parentes — ele via seus pais e irmãos apenas uma vez por mês quando voava de volta para a colina — mas, mesmo assim, o estudo na escola militar parecia a melhor coisa que lhe acontecera na vida: cheio de novos amigos no bando, novas técnicas de caça e a sensação de liberdade, podendo voar sem a supervisão de sua família.

Terminado o primeiro ano de escola Tícero voltou para sua casa, desejando aproveitar as festividades natalinas. Durante o trajeto encontrou uma linda ave, toda cheia de plumas e penas rosas. Sem tempo de conversar com a bela ave naquele momento, Tícero seguiu para sua casa sem perceber que ela havia deixado um pequeno mapa preso em seu pé. Ao chegar, e depois de cumprimentar todos os familiares, foi que ele sentiu um incômodo no pé direito, e, depois de ver que se tratava de um mapa, decidiu visitar a bela ave.

Encontraram-se e depois partiram em busca de alimento na floresta mais próxima. Juntos, Tícero e ela não conseguiam definir qual animal desejavam caçar, então decidiram — na sorte — capturar o que aparecesse primeiro. Eles conseguiram uma boa refeição, mas Tícero se sentiu mal porque o golpe fatal fora dado pela linda ave e não por ele. Como era um primeiro encontro ele fazia questão de oferecer essa cortesia à bela ave, dando-lhe o alimento que ela escolhesse, mas acabou acontecendo justamente o contrário: a ave, chamada Lica, que conseguiu encontrar e capturar os alimentos para a janta. Ele não se sentiu bem em saber que ela teve que trabalhar mais.

Lica não ligava para estas formalidades — ela era do tipo de ave que achava normal compartilhar este tipo de trabalho como forma de afeto — e, independentemente se fosse o primeiro ou o último encontro deles, ela diria: Se você tivesse achado primeiro você também não teria feito o mesmo por mim? E justamente, assim correndo o tempo, eles continuaram saindo para caçar durante toda a temporada de final de ano, ou, pelo menos enquanto Tícero estivesse morando nas colinas, antes de retornar para a escola militar. Com essa aproximação ele passou a não se incomodar mais com o fato de que Lica poderia caçar sem depender dele ou de sua força.

Quando chegou a época de partir para os estudos do segundo ano, Tícero e Lica conversaram sobre o que eles fariam com relação à distância que os separaria, já que estavam se gostando. Decidiram fazer um acordo: Tícero carregaria um belo colar, com uma pedra rara encrustada em seu pingente, e ele teria que usar este colar 24 horas por dia, todos os dias da semana, só podendo retirá-lo quando fosse voltar pras colinas. Assim, através do poder mágico da pedra, Lica poderia saber onde Tícero estaria, e se ele estava se comportando direito.

Tícero, apaixonado pela linda ave, aceitou como forma de demonstrar seu amor, e assim que chegou na base da escola militar colocou o colar. Todos elogiaram a qualidade do colar e a beleza da pedra, e ele se sentiu feliz em explicar para cada um que perguntasse que era o presente de sua amada. Confiante no relacionamento, Tícero sabia que Lica poderia ver à vontade onde ele estava e se estava se comportando, afinal, nesse sentido, ele não devia nada a ela.

Na primeira semana de aulas, após uma tarefa desgastante, os amigos do bando de Tícero — que dividiam o quarto na base com ele —resolveram sair para voar, desejosos de um ponto alto para verem a lua. Ele arrumou sua cama e saiu para encontrá-los, mas quando começou a bater as asas o pingente em seu pescoço acendeu uma luz rosa. Tícero achou estranho e tentou erguer-se mesmo assim, no entanto, assim que tirou os pés do chão sentiu um grande peso em suas asas — foi obrigado a pousar poucos metros depois —e quando parou de tentar voar a luz se apagou. Seus amigos chegaram perto e tentaram levantá-lo, todos voando para cima juntos, mas a luz tornou a acender e todos vieram para o chão.

Tícero falou para seus amigos irem, e ele passaria aquela noite no alojamento da escola — disse que aproveitaria para dormir mais cedo e estudar algumas aulas atrasadas. Quando entrou no quarto Tícero tentou tirar o colar, mas ao ver-se no espelho com ele viu como era bonito — o colar parecia deixar Tícero mais forte e belo — o próprio colar em si parecia uma peça de outro mundo, tamanha sua beleza. Convencido que a troca era justa, decidiu deixar de sair com seus amigos para se sentir mais belo, mais forte e mais seguro de si, mantendo o colar em seu pescoço.

Na semana seguinte, após uma prova dificílima sobre a velocidade média do voo das andorinhas, Tícero e seus amigos marcaram de voar até o Clube Noturno do Exército, em um campo gramado próximo à escola, para quem sabe conversarem e tomarem alguma coisa. Novamente, foi só começar a bater as asas que o peso de Tícero parecia triplicar. Sem forças, ele caía com os pés fincados no chão, e sem entender o que estava acontecendo começou a ficar irritado. Mais uma vez, mesmo ao chegar frustado em seu quarto, ele achou que a beleza e a sensação de conforto que o colar causavam valiam mais do que sair com seus companheiros de bando. Adormeceu sem tirar o colar.

Assim, sem conseguir voar para os eventos extraclasse, Tícero passou a sentir-se estranho, meio sozinho e sem ninguém que pudesse entender o que estava acontecendo com ele. Ele começou a desejar apenas alguém que pudesse ouvi-lo e aconselhá-lo, porque uma leve tristeza começa a dar sinais no horizonte de sua vida.

Quando retornou para casa, no meio do primeiro mês de aulas, Tícero e Lica saíram para caçar. Sem o colar ele pôde voar bem alto com ela e aproveitar cada momento daquele final de semana. Tícero queria conversar com ela sobre os poderes do colar, mas preferiu não trazer qualquer frustração àquela noite. Voltaram para a casa dela e dormiram juntos. Ele se sentia muito bem do lado dela, como se estivesse pronto para se entregar para sempre às asas de Lica, a única coisa que incomodava ele era o colar. Mas— ele pensou — posso guardar essa pequena insatisfação dentro de mim, tendo em vista o grande prazer que é estar com a LicaPondo na balança não tem comparação.

Num piscar de olhos o final de semana passou, e Tícero já estava voando para a base-escola. A cada vez que ele tinha que voltar para estudar, se despedir de Lica parecia mais dolorido. Com o passar do tempo, Tícero começou a experimentar sensações extremas: ficava muito triste de ir para a escola sem a Lica, mas muito feliz de estar na escola aprendendo coisas novas; ficava muito feliz de estar com Lica nas colinas, mas ficava muito triste de não sair com seus amigos de bando; por fim, achava o colar muito bonito, mas queria se livrar dele.

Tícero vivia em dois mundos, duas realidades que não se aceitavam — ou ele deveria se entregar para Lica ou se entregar para a vida estudantil. Não que ela colocasse qualquer impedimento sobre as atividades de classe em si, pelo contrário: inclusive ajudava-o comprando livros para cada matéria que ele não conseguia comprar. O problema é que ele passou a sentir-se excluído dos círculos de grande parte das outras atividades, as extraclasses. Estava há quase 6 meses sem conversar com seus amigos num ambiente mais descontraído, sem poder jogar conversa fora tomando uma dose de água das montanhas. Pássaro belo e social que era, isso aos poucos minava alguns traços positivos da personalidade aberta de Tícero —que passou a responder menos às investidas de outros colegas nos corredores e reuniões, mesmo sendo meras cordialidades, como um bom dia, por exemplo.

Tícero também começou a ficar mais irritado — brigava mais com seus colegas de quarto e gritava frequentemente com eles. Então passou a querer voar mais vezes de volta às colinas para ver Lica, e assim abandonava as atividades de final de semana da escola, dedicando-se mais à sua namorada do que antes. Só que agora, quando Tícero voltava, ele queria aproveitar cada segundo com Lica, queria que tudo valesse a pena, e se algo não desse certo ele se irritava. Não demorou para que as primeiras discussões por causa disso começassem entre o casal. E assim chegou-se ao ponto que mesmo voltando para as colinas Tícero sequer via Lica.

Tícero passou a se questionar se valia a pena se submeter a este tipo de controle, sendo que ele nunca impôs qualquer tipo de coisa semelhante à Lica. Ela parecia não confiar nele, e a cada briga que eles tinham essa sensação aumentava — era um ciclo que não poderia levar à coisa boa. A desconfiança fez ela me dar o colar, eu uso ele, e quando brigamos parece que nada disso adianta para ela, pois ela continua vendo que eu não faço nada errado e pede que eu mantenha ele em mim. Não faz sentido! A diferença entre direitos e deveres naquele relacionamento era outra insatisfação que Tícero colocava embaixo do tapete, como preço para fazer as coisas darem certo.

Os meses passavam e Lica e Tícero, bem ou mal, continuavam se relacionando. Tícero acostumou-se com aquela situação, e o fascínio que o colar exercia nele quando se olhava no espelho parecia fazer qualquer coisa valer a pena para mante-lo daquele jeito, em seu pescoço. As aulas voltavam na segunda-feira e Tícero voava para a escola sem grandes pretensões de mudar algo —quando ele estava com Lica se sentia garantido, com boa comida e companhia e quando voltava se sentia solitário e mal-compreendido, mas era apenas outra parte dos erros do relacionamento que ele engolia, como custo da normalidade.

Um belo dia no entanto, Tícero acordou irritado de um sonho — ele sonhou que não conseguiria nunca mais voar. Ele levantou, foi até o espelho e viu o belo colar. Intrigado com os poderes daquele objeto e os danos que ele poderia causar em seu corpo, Tícero tentou tirá-lo, mas ele parecia muito mais pesado do que quando colocou a primeira vez. Ele fazia muita força e o colar pouco se mexia (quase nada). Tentou voar com o colar, mas dessa vez mal tirou os pés do chão. ele começou a ficar desesperado, triste e sem saber o que fazer. Seus sentidos começaram a falhar, sentiu o ar fugindo do bico e o mundo todo foi escurecendo em seus olhos —Tícero desmaiou.

Quando acordou a enfermeira da escola lhe contou que aquele colar era um objeto mágico: roubava um pouco do sangue de quem o usava a cada dia que passava, e que só Tícero poderia retirá-lo, mas para que pudesse sair o dono do colar deveria tomar uma atitude de coragem sem precedentes, enfrentando seu maior medo. De outro modo, o colar não sairia de seu pescoço. Ticero pensou, e então decidiu: voou até as colinas e encontrou-se de surpresa com Lica.

Na frente dela ele disse tudo — que não aguentava a diferença de obrigações entre eles, que não gostava de ser controlado daquele jeito e que aquele colar estava matando ele, tanto fisicamente quanto psicologicamente, e perguntou como ela tinha coragem de dar uma coisas dessas a alguém que se ama. Então Tícero pegou o colar com as duas asas e jogou-o no chão com toda a força. O colar se despedaçou na frente de Lica, mas o que Tícero não sabia era que aquele era o coração dela. Assim que o colar quebrou, Lica gritou e caiu de joelhos, aos poucos começou a morrer. Tícero viu a cena e correu para ajudá-la. Colocou a cabeça dela entre suas asas e perguntou sobre tudo aquilo, arrependido por sua atitude.

— Mas por que Lica? Por que deixamos chegar a esse ponto? Por que nunca me disse que era seu coração?

— Por que eu queria que você ficasse com uma parte de mim, a parte que mais importa, só que parece que isso não é o suficiente quando as pessoas não enxergam as mesmas coisas.

— Mas seu coração me causou todo esse mal, por que não conversou comigo para eu te ajudar antes? Seu coração estava roubando meu sangue, me prendendo. Não é esse o preço que um coração deve ter!

— Meu coração era a coisa mais valiosa que eu podia te dar, Tícero. Ele roubava seu sangue porque eu queria que eu e você fossemos uma coisa só, um só corpo. Eu sonhava com você, tinha você como meu passado e meu futuro. Mas parece que o coração, por melhor que seja, não carrega só os desejos bons. Eu te perdoo Tícero, eu te amei e agora eu entendo. Não deixe seu coração depender do sangue dos outros…