A menina e o balão

Viaduto do Chá, o primeiro construído na cidade de São Paulo, para possibilitar o acesso e a comunicação, numa tarde tipicamente paulistana, ensolarada e poluída, foi palco apoteótico de nossa catarse.  Criaturas totalmente esvaziadas de subjetividade, num abismo existencial medonho, sem alma, sem mente, sem pensamento, preenchidas apenas por ódio e vontade de destruição, ocupavam o viaduto. Matar, matar, matar. Seu mantra. Violentar, destruir, eliminar. No Brasil, o Apocalipse Zumbi já começou. Andam em bandos para se fortalecer, mas tentam espalhar seu vírus devorador de cérebros também através do ambiente virtual — meio propício à proliferação. Nunca refletem, apenas reagem. Não conseguem pensar ou discursar, só grunhem. Não articulam argumentos, apenas vociferam e violentam. Eis que, em seu delírio compartilhado, seus líderes mandaram fazer um boneco gigante daquele que consideram seu pior inimigo. Le théâtre de l’absurde… Um vudu-godzilla, em respeito ao poder de tamanho adversário. Um bezerro de ouro para odiação (desculpem o neologismo): um boneco inflável, um balão. Se ainda fosse um boneco inflável pra extravasar tesão… mas não. Aliás, seu recalque é a origem de sua demência. E por que odeiam esse inimigo-balão? Não sabem dizer, apenas odeiam. Se, em raras circunstâncias, algum dos acéfalos tenta justificar seu ódio, invoca argumentos que dois segundos de articulação lógica de ideias desmontam. Então, voltam a grunhir, e qualquer discussão é natimorta. Odeiam. E querem destruir. Só. Nada mais simbólico do que seu balão, inflado de nada. Não há substância nenhuma que fundamente sua marcha sem rumo. Um grande balão de ar, um delírio, convertido em totem da destruição.  Idólatras e dementados, seguiam seu totem em transe hipnótico naquela tarde. De repente, o balão começa e pender para um lado, os zumbis estranham, mas continuam a gritar seu Hitlergruß ou qualquer que o valha. Então, o boneco começa a desmilinguir-se lentamente, lentamente… até desmanchar por completo e transformar-se no que sempre foi: um nada. O que aconteceu? — perguntavam-se os que ainda conservam rudimentos de linguagem. E uma menina ascende luminescente. Jovem, linda, trigueira, altiva. Uma amazona tupi socialista. Catiti catiti, Imara Notiá, Notiá Imara, Ipeju! Asé! Nossa força ainda pulsa! Manu morena, te vejo bailando sublime em nuvens de satisfação. Teu sorriso sereno de quem cumpriu uma missão. Podem grunhir! Os zumbis babando, tentam te alcançar… Não podem! Você voa! Enlutados, quedam-se perplexos diante da cena mais patética que aquele viaduto já viu: o boneco murcho no chão. A mais crua representação do que é a escalada desse fascismo demente. Um estorvo, mais nada. Chamem a limpeza urbana pra tirar aquele lixo do passeio público histórico! Tosco… Perigoso? hahahahaha… Apenas se acharmos que não pode ser enfrentado, deixando-nos contaminar pelo vírus zumbi. E não precisa mais do que uma menina para estourar um balão. E coragem, denodo, iniciativa. Uma menina guerreira, guerrilheira da pós-modernidade holocáustica da inteligência. Nossa heroína. Guarani, cangaceira. Fúria tupinambá, batucada nagô. O balão murchou. Zé Celso dança nu no seu entorno. Pátria livre, venceremos! Gargalhadas frouxas retumbam em todos os cantos. Novo cântico: Viva Manu! Saravá! A força da juventude e a simplicidade de um ato de coragem que prostrou todos os idiotizados. Choram de joelhos sobre o cadáver de seu nada. Salve! Salve! Nós nos regozijamos. Rimos, rimos… A menina furou o balão! hahahahaha… Beberemos hoje em homenagem a Manu. Para acabar com tamanho disparate, basta pouco. Uma menina —para destruir um balão. E, se quiserem, podem trazer o candidato de papelão, que, agora, a gente rasga.