Sexo à distância & Real Dolls: como a perfeição estragou o prazer

Sim, é uma boneca - Foto de: Simona (flickr.com/81428837@N00/)

Hoje, 16 de setembro de 2015, li uma reportagem sobre um aparelho (dois na verdade) que, quando conectados à internet, simulam uma relação sexual à distância. O mecanismo, em tese, é simples: os movimentos de um aparelho reproduzem no corpo da outra pessoa os dados enviados pela internet, ou seja: você posiciona o aparelho que simula uma vagina de um determinado modo Y, este modo Y será reproduzido no aparelho que simula um pênis, que estará dentro do corpo dx parceirx. Para saber mais leia: Tecnologia permite transar à distância.

Por coincidência, ou não, esta semana soube que uma empresa americana constrói bonecas que parecem pessoas de verdade. A finalidade para qual são feitas, deduzível pelo nível de detalhamento dos órgãos sexuais, é justamente substituir as famosas bonecas infláveis por modelos mais realistas. A empresa inclusive dispõe dos direitos de imagem de atrizes da industria pornô, para fabricar suas bonecas à semelhança deles, e permitir a qualquer um com 9 mil dólares que realize o sonho de se satisfazer com uma estrela do mundo adulto. Aos curiosos que quiserem ter uma ideia do quão impressionante é o trabalho feito basta acessar o link: Real Dolls (18+).

E o que as duas notícias tem em comum? Alias, a pergunta que realmente deve ser feita é: o que nisso tudo é provocante para se escrever sobre? Simples, mas não tão simples assim: a realização de um erotismo cada vez menos humano.

Tal fenômeno não é passível de exposição completa neste parágrafo, mas em linhas gerais se resume como a busca de prazer cada vez mais individualista e mediante aspectos perfeccionistas. É um processo que acarreta intolerância a qualquer defeito relevante nas relações de cunho sexual, e eu me refiro a toda gama de defeitos: desde cicatrizes no corpo dx parceix, roupas, comportamento ou mesmo a situação financeira; e isso se reflete em práticas sexuais cada vez mais egoístas e solitárias, já que o outro é sempre um reflexo cada vez mais falho das metas que nós deveríamos cumprir.

Nós nos escusamos dizendo que temos medo de nos relacionar, mas o que temos medo mesmo é de nos relacionar com pessoas consideradas feias, as quais nós fomos levados a crer que possuem  disposições físicas ou financeiras que nos deixariam constrangidos na rodas de amigos. São os padrões estéticos que muitas vezes nos afastam das pessoas que não se encaixam no perfil ideal, e que fomentam uma nota de corte dentro de nós antes mesmo de querermos conhecer alguém. Ninguém aqui tem medo de apresentar para os pais uma moça de 55kg, mas que seja ciumenta-possessiva. Poucos irão olhar torto para você na roda de amigos neste caso, afinal é só um pequeno problema secundário frente ao poder da beleza; mas tente apresentar uma namorada com alguns quilos acima do peso e veja a reação das pessoas. A maioria irá tecer comentários maldosos, como se namorar alguém fora dos padrões fosse o oitavo pecado.  E os bonecos hiper-realistas refletem a primeira parte deste questionamento: que nós não nos queremos mais nos relacionar com humanos, nós queremos tudo perfeito! E se tem uma coisa que sobrevive nesse mundo com o mínimo de perfeição são os próprios humanos.

Com relação a desumanização do sexo, logo após expor a busca do perfeito com as RealDolls, cabe unir ao texto a segunda parte, que se relaciona com a notícia do sexo à distância. Não que seja ruim praticar sexo virtual à distância, afinal já foi provado que se masturbar traz benefícios a saúde (Os benefícios da masturbação para a saúde feminina) e que o contato sexual à distância entre o casal pode apimentar a relação (Casais que praticam sexting tem melhor relacionamento), mas o que eu sou contra é a substituição do REAL. E essa substituição é instrumento que favorece o surgimento de barreiras contra a realidade, ou que ao menos minam a nossa coragem para enfrentá-la.

Nessa busca de parceirxs ideais a frustração pode ser tão grande que o prazer fica subjulgado, fica em segundo plano. O importante é, mesmo que de maneira sintética, simular as condições mais adequadas; uma espécie de CNTP do sexo. Só que, assim como nas aulas de química as condições normais de temperatura e pressão não passam de uma utopia para facilitar os exercícios de vestibular, no sexo é a mesma coisa. Isso explica, em partes, o crescimento da busca por vídeos pornôs (Dez fatos sobre a indústria pornográfica), nos quais a simulação do perfeito é mais intensa na realização do prazer do que se relacionar com uma mulher real ao seu lado.

Ora, encaminhando uma conclusão não tão satisfatória, a desumanização do sexo não traz quase nada de positivo! No máximo permite um estudo mais aprofundado sobre como se pode influenciar nossos subconscientes de forma coletiva e mediante coação social (fato social), como isto alterou a busca pelo prazer e como nós lidamos com essa mudança, através desse êxtase constante em relações mentirosas ou virtuais. Minha opinião é de que o real é insubstituível e que nós, nesse mundo sempre em rush hour, precisamos aprender a tirar prazer das coisas mais simples (e não me refiro aos prazeres massantes: como olhar o mar ou ver uma joaninha), me refiro ao próprio prazer sexual mesmo: curtir ver seu/sua parceirx sem roupa, mesmo com todos os seu defeitos, ou curtir um diálogo durante a relação que faça você se sentir atraído pela inteligência (ou mesmo safadeza) de pessoas que se mostram tão reais e defeituosas quanto você. Sinta tesão na imperfeição, que é da natureza do próprio ato sexual, e busque quem te faça feliz na cama, e não na tela do computador.