A rainha e os tagarelas

A tagarelice pseudo-crítica que se criou em torno da apresentação do Queen no Rock in Rio 2015 é sintomática da facilidade com que o discurso rasteiro da nossa imprensa é assimilado e opiniões terrivelmente inconsistentes são rapidamente formadas. E isso é lamentável.

Os tais dos críticos de música que resolveram comentar o show só conseguiram mostrar que não entenderam a proposta do Queen, ou então sequer assistiram a performance da banda com a devida atenção que um crítico sério e genuinamente criterioso deve ter. Os comentários que li foram altamente superficiais, e muitas vezes se restringiram à tarefa patética de tentar comparar o incomparável. Como músico, eu educadamente sugiro aos ditos críticos de música que certamente assistiram ao show já dispostos a esculhambar com o Adam Lambert a todo custo que revejam profundamente seus métodos e posturas. Sugiro que sejam, em suma, mais comedidos nos seus ataques e menos pretensiosos na importância que dão ao seu ofício. Afinal, é preciso lembrar que a crítica vem sempre depois da manifestação artística, e não o contrário. Ou seja, se há uma primazia, essa é a da arte sobre a crítica. O crítico de verdade sabe disso, e jamais tenta atrair para si os holofotes que pertencem fundamentalmente ao artista.

Digo isso porque uma das frases que mais me incomodou nessas pseudo-críticas do show do Queen foi “Adam Lambert passa por prova de fogo”, ou variações sobre o mesmo tema. A pretensão desse tipo de comentário é enorme, pois frases desse tipo sugerem que o Adam Lambert precisava desesperadamente da aprovação do público brasileiro para ser legitimado como vocalista do Queen. Nada mais pueril do ponto de vista da crítica musical. Sim, porque aqui existem dois grandes equívocos: o primeiro deles é que, se já existiu alguma prova de fogo pela qual o Adam Lambert teve que passar, essa foi a de impressionar o Brian May e o Roger Taylor, que dividiram o palco e o estúdio com o Freddie Mercury por décadas, é bom lembrar. Pois bem, isso o Adam Lambert já fez faz tempo. Prova disso é que o Queen vem de uma turnê relativamente longa com o Adam Lambert e basta o jornalista fazer uma pesquisa rápida no YouTube que ele/ela vai encontrar vídeos e mais vídeos das performances deles juntos. E uma apresentação melhor do que a outra, se me permitem o comentário. Segundo, essa tolice de “prova de fogo” só mostra que esse tipo de jornalista “crítico” sofre de grande miopia cultural, pois é incapaz de enxergar aquilo que transcende os limites da própria falta de conhecimento musical. Sendo assim, fala bobagens como essa que eu mencionei e, no limite, revela mais sobre o seu despreparo como crítico do que sobre aquilo que ele se propõe a criticar. Erro típico de quem se arrisca a comentar aquilo que não conhece a fundo. É a bravata tomando o lugar da crítica metodologicamente rigorosa e cuidadosa.

O grande problema é que o que esses impostores escrevem e publicam em jornais ditos respeitados muito frequentemente se converte em verdade inquestionável. Prova disso são os comentários nas redes sociais no dia seguinte, muitos dos quais ecoavam, ipsis literis, opiniões como o “Queen é uma boa banda cover de si mesmo” e outras bobagens do tipo. Não demorou muito para que eu constatasse o óbvio: essas opiniões haviam sido disseminadas por resenhas que eram, quando muito, boas colagens de frases retiradas do senso comum mais chinfrim. Nesse sentido, é difícil não pensar que, na verdade, temos mesmo os jornalistas rasteiros e a opinião pública raquítica que merecemos.

Muitas das críticas que li (e li praticamente todas as que eu encontrei) forçam descaradamente uma comparação irreal e profundamente descabida entre Adam e Freddie. Comparação que, é sempre bom lembrar, a própria banda em todas as suas entrevistas sempre fez questão de refutar. Penso que um jornalista cultural bem informado precisaria saber essa que, para o ofício dele, deveria ser uma informação básica. Levando isso em consideração, tentar avaliar o desempenho do Adam Lambert a partir de uma comparação grosseira com o Freddie Mercury, como muitos desses jornalistas culturais insistiram em fazer é, no limite, dar uma prova cabal de charlatanismo crítico da pior espécie. Mas pseudo-críticos escrevendo para um público de pseudo-roqueiros não chega a ser de todo absurdo.

Assisti ao show pela televisão e gostei muito da performance do vocalista e da banda como um todo. Como músico, posso afirmar que o Adam Lambert é muito seguro como cantor e extremamente afinado. Extremamente! Além disso, não parece ter medo do palco, o que, para fazer uma turnê com banda lendária como o Queen é absolutamente essencial. E, só para irritar as viúvas do Freddie Mercury, vou me dar ao luxo de cometer o que eles diriam ser um sacrilégio. Para mim, “Stone Cold Crazy”, música que só os fãs de verdade do Queen conhecem e que passou batida para a maioria desses “críticos”, ficou muito melhor na voz do Adam Lambert. Assim como “Hammer to Fall” ficou melhor na voz do Paul Rodgers, na turnê Queen+Paul Rodgers que a banda fez em 2008.

Em suma, como jornalistas culturais, esses “críticos”, ao comentar o show do Queen, fizeram o que fazem de melhor: prestaram mais um grande desserviço aos interessados em música. Eles não precisavam esperar que o Queen repetisse o show de 1985. Bastava que procurassem o show no YouTube, assistissem até ficarem entediados e começarem a achar que nem mesmo o Freddie Mercury era tão bom assim no fim das contas. Sim, porque desse tipo de jornalista cultural eu espero de tudo, menos coerência argumentativa e opiniões consistentes.