Em São Paulo, escola boa é escola fechada

Foto: Edson Lopes Jr/A2 FOTOGRAFIA

Como resolver o problema da educação pública? O governo do estado de São Paulo já encontrou a solução, absurdamente genial em sua simplicidade, pragmatismo e eficácia incontestável: é só fechar as escolas. De fato, a sofisticação do raciocínio do governador e do seu secretário de educação é absolutamente sui generis tanto em método quanto em escopo. Por isso mesmo é que a ideia deles merece algumas poucas linhas analítico-argumentativas, escritas, é verdade, com algum espanto e carregadas nas tintas da galhofa.

Primeiramente, fechando escolas, você soluciona o problema da evasão escolar. Afinal, os alunos não vão mais abandonar a escola porque simplesmente não podem abandonar uma escola que não existe. Fenomenal isso, não? Em segundo lugar, fechando escolas você também acaba com os baixos índices de leitura dos alunos, o tal do analfabetismo funcional. Além disso, também elimina todos os problemas decorrentes do domínio precário que essas crianças e adolescentes têm das operações matemáticas básicas. Os índices negativos, portanto, deixarão de existir. Até porque, sem o que medir sequer teremos os parâmetros mínimos necessários para determinar se tais índices são mesmo baixos ou não. Verdade seja dita, a nova política de educação do estado de São Paulo é tão genial que consegue abolir até mesmo a necessidade desses índices e dessas estatísticas todas. Afinal, como alguém poderá medir o que não pode ser medido, posto que inexistente? Como não pensaram nessa solução genial antes?!

Mais importante de tudo é que fechando as escolas você acaba com o inconveniente de ter de lidar com a razão de todo o mal na educação: o professor. Sim, porque o professor é aquela figura recalcitrante, que sabe que deveria trabalhar por pura vocação e cultivar uma ética de trabalho sacerdotal, mas que na prática é profundamente arredio e dado a questionamentos descabidos. O professor é aquele sujeito nada positivo no ambiente de trabalho, que não para de reclamar do salário justo e digno que recebe do estado e que só pensa mesmo é em fazer greve por qualquer coisinha boba. Sem escola, portanto, não teremos mais greves de professores porque não teremos mais professores para fazer greve. Não é genial? O plano só não é melhor do que o eufemismo usado para descrevê-lo: “reorganização”. Sim, porque saber nomear um projeto educacional qualquer é o mais importante. O resto a gente “vai levando” e espera para ver no que dá. De fato, o governo estadual achou um jeito infalível de, como dizem, cortar o mal da educação pública pela raiz. Isso sim é que eficiência administrativa e gestão responsável e transparente. Agora entendo porque ele foi reeleito em primeiro turno no ano passado. São Paulo é, sem sombra de dúvida, governado por um homem público de bem, responsável e visionário.

Diante desse anúncio do fechamento das escolas, é impossível não ficar extremamente curioso sobre qual será o desdobramento desse plano tão astuto e cuidadosamente elaborado dessas duas figuras ímpares que são o governador e o seu secretário de educação. Fico me perguntando, por exemplo, se o método tão engenhosamente desenvolvido para resolver de vez o problema da educação no estado não poderia ser aplicado também para solucionar outros problemas igualmente sérios. Fico imaginando, por exemplo, se o governador não teria algo tão simples, pragmático e de baixo custo operacional, na linha do seu plano de “reorganização” educacional, para solucionar o problema da saúde pública no estado. Talvez promover uma “reorganização” da saúde que fechasse de uma vez por todas os hospitais públicos? Sim, porque daí você eliminaria do horizonte três dos maiores problemas da saúde pública no estado: os pacientes, os enfermeiros e os médicos. Sobraria o hospital, claro. Mas um hospital sem médicos, enfermeiros e pacientes é só um prédio, normalmente velho e carcomido, que pode facilmente receber uma função mais útil, nobre e, sobretudo, rentável. Ele pode virar um grande e belo shopping, por exemplo. Lógico, depois de ser devidamente implodido, com transmissão em rede nacional para deixar bem claro para todos que, em São Paulo, o governador e seus secretários trabalham muito e pensam, acima de tudo, nos interesses da população que votou neles com fidelidade canina.

P.S. Por favor, não sejam ingratos discordando desse plano simples e genial. Se fizerem isso, e resolverem protestar em lugares públicos como a Avenida Paulista, o nosso magnânimo governador pode ficar chateado com tamanha desfeita e, do alto da sua infinita bondade e misericórdia, ser obrigado a enviar os seus cães de guarda fardados para “conversar” com vocês. E vocês sabem que para a turma do cassetete e d0 coturno , “ordens são ordens”. Se é que vocês me entendem, claro.