Metas de Inflação Perdem Eco Entre Economistas

As metas de inflação nasceram de um projeto político-econômico elaborado ao final dos anos 80 em Washington e aos poucos ganharam aderência nos países endividados. Consistem em tentar manter o IPCA em uma faixa estabelecida pelo Bacen para dar segurança aos mercados e fazem parte do pacote que também contém superávit primário e câmbio flutuante. No caso brasileiro, a adesão ao tripé ortodoxo aconteceu ao final dos anos 90.

As metas permaneceram no governo Lula. No entanto, a partir do governo Dilma, para alguns analistas, o tripé foi substituído por meta de crescimento, resultado fiscal e câmbio administrado, que seria um tripé novo-desenvolvimentista.

Evidentemente todos reconhecem que as metas dão uma maior informação aos agentes econômicos acerca da previsão dos preços, entretanto, a maior parte da inflação é composta por preços de bens comercializáveis, sendo determinados pelos preços internacionais e independentemente da política.

Importante ressaltar que após a crise de 2008, o Fed e o BCE despejaram trilhões de dólares para não derrubar os sistemas bancários. Esse aumento de liquidez ocasionou a necessidade de desvalorizar o real para manter a competitividade, distanciando o câmbio da flutuação e se aproximando da administração.

Ao longo deste mês, economistas como Monica de Bolle, Laura Carvalho e Pedro Rossi lançaram algumas propostas.

De Bolle aponta para o abandono temporário das metas de inflação em prol de uma banda cambial variável para ancorar os preços, às custas da venda das reservas do Bacen. Para ela, o déficit fiscal nominal tende a aumentar no próximo ano, fazendo com que o Bacen perca a capacidade de fazer política monetária. Nesse cenário, as metas perdem eficiência e a ancoragem cambial cumpriria o papel de balizador dos preços. Em último caso, recorre-se ao controle de capitais.

Já Carvalho e Rossi discordam da ancoragem cambial e argumentam que a política desgastaria a credibilidade do Bacen, que sem reservas para barganhar, estaria suscetível a crises cambiais em caso de maior desvalorização do real. Essa crescente desvalorização já está prevista, uma vez que o Fed anunciou elevação da taxa de juros, o que reverberaria no Brasil uma maior demanda externa pelos dólares aplicados no país. Rossi pontuou que a suscetibilidade do mercado de câmbio a crises advém fundamentalmente da desregulação dos derivativos, o que deixa a taxa de câmbio ser formada a partir de especulação.

A previsão do IPCA para esse final de ano é de 9%, já que houve reajuste nos preços monitorados pelo governo (energia elétrica, passagens de ônibus, gasolina), bem como encarecimento dos produtos importados devido à desvalorização do real. Já no ano que vem, como não haverá novos ajustes, a previsão do governo é de 5.5%. Diante da recessão, o aumento do desemprego e a redução da massa salarial contraíram a demanda, barrando o reajuste de preços, mas também o crescimento.

O FMI, que contribuiu no Consenso de Washington, vem recomendando ajustes graduais nas contrações fiscais dos países em recessão, de modo a controlar indiretamente a inflação sem choques macroeconômicos. Isso me lembra certa vez em que um professor disse que tem antropólogo que quer ser mais índio que o próprio índio. Aparentemente, o mesmo vale para a alguns economistas ortodoxos.