Magreza não é beleza, mas não há nada de bom em ser gorda

Nas minhas aulas de Antropologia, sempre advirto que nossa cultura moderna-capitalista-ocidental não é parâmetro para aplicação de teorias etnológicas porque há uma indústria cultural produzindo valores e nos induzindo a os introjetar como se fossem nossos. Nossa cultura é artificial e está aprisionada na forma mercantil. Por isso, por exemplo, os padrões axiológicos binários descritos por Levi-Strauss só podem ser tomados a partir da determinação realizada pela infraestrutura. Aí estariam compreendidas nossas noções de belo e feio, pares de opostos estruturalistas.

Em nossa sociedade, belo será o que o mercado quiser que seja belo. A indústria cultural nos coage constantemente a mimetizar os padrões estéticos que vende, de forma tão violenta, que nos convence de que, se não nos parecermos a eles, não somos dignxs de olhares, de atenção, de carinho, de afeto, de tesão, de amor… Como a massa acrítica e alienada engole tudo o que a indústria cultural lhe entucha, as pessoas passam a se comportar de tal maneira que realmente se tornam incapazes de amar e desejar quem não corresponda aos padrões. O discurso cria realidade, de modo que o que o mercado considera feio passa mesmo a ser rejeitado socialmente. Essa perversidade avilta homens, mulheres e crianças; porém, em relação às mulheres, é muito mais cruel, já que seu corpo, por conta do machismo, é tratado como objeto de fruição masculina. Como objeto que é, DEVE ser um objeto de consumo atraente, conforme estabelecido pelo mercado e propagado pela mídia.

No Brasil, há um mito de que os homens gostam de mulher “boazuda”, “gostosona”, que seria uma mulher sem barriga mas com seios, coxas e, principalmente, nádegas fartos. Entretanto, esse padrão estético não é tão difícil de ser emulado quanto o padrão esquelético imposto pelas passarelas de Milão a Nova Iorque, e o capital precisa operar com o padrão mais inalcançável possível, porque, quanto mais antibiológico, mais consumo fomentará, vendendo desde cosméticos e planos de academias até cirurgias estéticas. Por isso, a indústria cultural brasileira aderiu a esses parâmetros neste início de século, e seu maior ícone, a Rede Globo de TV, cuidou de colocar suas  “gostosonas”, como Juliana Paes, no padrão caveira de beleza. Mais do que nunca, a magreza tem sido perseguida neuroticamente, e a indústria cultural vai, cada vez mais, botando lenha da fogueira de vaidades. Conclama os zumbis a ter barriga negativa, e apresenta imagens de pessoas irreais, criadas em photoshop, a que todos irão desejar se igualar. Então, no Brasil de hoje, a “boazuda” perdeu lugar até no carnaval, trocada pelas magrelas.

Especialmente nas classes socioeconômicas mais elevadas, cujos valores são absolutamente controlados pela indústria cultural, os homens não mais procuram a mulher da bunda grande – estão interessados nos cambitos. Acontece que magreza não é nada bonito… Gente magra demais é feio, porque remete à desnutrição, à inanição… Tanto é que será raríssimo encontrarmos culturas (genuínas) que valorizem a magreza extrema, exceto por motivos religiosos. Magreza associada à beleza é algo típico da sociedade de consumo capitalista. Muito se discursa sobre os perigos que a obesidade causa à saúde, mas quase nada se fala sobre os perigos da esqualidez. Somente muito recentemente, devido a inúmeras mortes de adolescentes no mundo, é que se começou a discutir a anorexia, até que, por uma questão de saúde pública, alguns países, como a França, legislaram para proibir que a indústria cultural cultuasse a imagem esquelética. O impacto não foi tão significativo.

Por estas bandas de capitalismo tardio, a mídia continua a nos oprimir com esse discurso. A anorexia mata mesmo, mas não é só esse extremo que é pernicioso. Uma pessoa magra, não anoréxica,  pode ter inúmeras deficiências vitamínicas, minerais, proteicas, ter crises hipoglicêmicas, anemia, problemas de concentração e aprendizado e imunidade precária. Se, porventura, for acometida de uma doença que causa emagrecimento, desde uma simples rotavirose até uma grave leucemia, não tem reservas… Imagine uma pessoa de 50kg ser acometida por uma moléstia que a faça perder 15kg num curto período de tempo… Morre. O mesmo não aconteceria tão violentamente com alguém de 70kg. Porém, a indústria cultural nos diz que uma pessoa de 70kg é gorda (vejam que propositalmente nem estou levando altura em consideração, como faz a indústria). E pior: há médicos e nutricionistas reproduzindo esse discurso. Desculpem-me, mas magreza não é beleza e muito menos saúde.

Agora, se uma pessoa de 70kg é gorda, imaginem uma pessoa de mais de 100kg? Obesa. Obesa mórbida – terminologia assombrosa. Por conta de toda essa propaganda vil da esqualidez como perfeição e dos inúmeros sofrimentos psíquicos que esses valores causam às pessoas gordas, recentemente, começaram a aparecer tentativas de empoderamento gordo. Surgiram a lojas de roupas especializadas, editorias de moda, blogs, sites, eventos etc – todos com o intuito de valorizar os gordinhos e, principalmente, as gordinhas, pois a mulher é quem mais sofre com todos esses discursos. Ao ver um novo nicho de mercado se configurando, o capital não demorou a lançar seus tentáculos, criando o setor “plus size” nas grifes famosas e levando-o para as passarelas. “Plus size” quer dizer acima do tamanho, ou seja, acima do tamanho normal. Portanto, o glamouroso “plus” é, na verdade, anormal. Ocorre que o tamanho “normal” da indústria cultural vai até o número 40, no mááááximo, 42 (numeração brasileira). Por isso, as modelos “plus size” que desfilam em Paris e Nova Iorque são as pessoas “gordas” de 70 kg… Assistam a programas como “America´s next top model” e confiram. Mas, se o capital abraçou essa nova seara de mercado, pelos seus rendimentos, por que não assumiu as pessoas obesas e levou às passarelas pessoas de 100kg ou mais? Porque seria insuportável para os olhos da moda.

Mas gordura é feiura? Diferentemente do que ocorre com a magreza, há diversas culturas (genuínas), mundo afora, que associam gordura à beleza. A própria cultura europeia já foi uma delas antes do domínio absoluto do mercado sobre os axiomas. Ou seja, ser obeso não é necessariamente feio como nos fez crer a indústria cultural – é apenas um parâmetro, que varia de cultura para cultura. Ocorre que, a despeito de toda denúncia que sempre faço acerca das perversidades do capitalismo e da indústria cultural, algo também precisa ser dito: ser gordo ou gorda não tem nada de bom. Incomodam-me muito esses novos discursos de empoderamento de pessoas gordas, que subvertem completamente os valores e substituem o discurso da mídia por outro tão ruim quanto ele. Essas páginas e movimentos vendem a ideia de que obesidade (inclusive mórbida) é algo lindo, sexy e digno de orgulho. Como a percepção estética é construção discursiva, estão fazendo um combate ideológico legítimo. O problema, porém, é que a obesidade é mesmo uma doença.

Se achamos escandaloso que o mercado fomente uma doença grave como a anorexia, por que vamos apoiar discursos que fomentem a obesidade? Apenas porque é contra-hegemônico? Acho isso de uma irresponsabilidade atroz. Obesidade e anorexia são doenças que causam males gravíssimos e podem levar à morte, de modo que é tolice promover uma ou outra. Tais discursos trazem fotos de pessoas obesas em roupas sensuais, dizendo o quanto são belas e desejáveis para operar como autoajuda. Porém, são tão cínicos quanto qualquer outra autoajuda, pois trabalham superficialmente e artificiosamente questões que demandam acompanhamento profissional. Não estou fazendo um discurso medicalizante da vida, mas bem-estar psíquico e físico não se alcançam por curtir uma página do facebook para o orgulho de ser gorducha.

Ainda, esses discursos, muitas vezes, afirmam que obesidade não é necessariamente uma condição médica, uma vez que muitas pessoas obesas têm seu colesterol e sua glicemia dentro dos níveis normais. É verdade, podem ter, mas obesidade não causa apenas doenças associadas a esses fatores. A própria hipertensão pode ocorrer sem alteração do colesterol. Além disso, obesidade (e até sobrepeso) causam sobrecarga nas articulações e podem gerar hérnias, dores, esporão, e problemas de coluna, quadris e joelhos – saltos altos estão fora de cogitação, diferente das fotos sexys mostradas nesses espaços pró-gordura. Pode também causar sério prejuízo à atividade cardiovascular porque, como sobrecarrega o esforço ao realizar movimentos, associa-se ao sedentarismo. Mesmo que uma pessoa obesa queira fazer exercícios ou praticar esportes, seu desgaste será muito grande, o que realmente é uma dificuldade, e não apenas uma preguiça. Isso sem falar em outros tantos problemas, como apneia do sono e desequilíbrio endócrino.

Não tem nada de bom na obesidade. Desculpem-me os entusiastas do orgulho gordo. Devemos sim combater a gordofobia e precisamos estar atentos aos discursos absurdos da mídia sobre magreza ser beleza e felicidade. Por outro lado, celebrar a obesidade é esdrúxulo. Precisamos ter uma relação de bem-estar e bem-querer com este nosso veículo carnal, e isso passa por uma relação de respeito, sem abusos em nenhuma direção. Inclusive, obesidade é uma doença mais disseminada na sociedade de consumo e se associa muito ao capitalismo, com sua indústria de junk food, repleta de gordura trans e de sódio. A comida industrializada, cheia de transgênicos, os agroprodutos, cheios de veneno, a carne produzida de forma violenta e poluente… mazelas do sistema econômico, que lucra nos fazendo engolir esses produtos e, depois, lucra, novamente, com produtos para tentarmos emagrecer.

Por isso, combater a ideologia e a perversidade da indústria cultural não é cultuar a gordura – isso opera em favor do capital também. Combater toda essa perversidade é manter a permanente reflexão crítica e a alimentação consciente. Nosso ato de comer não pode ser alienado, programado… precisa ser pensado. Sem neuroses de magreza, corpão sarado ou musculoso, alimentando-nos e nos movimentando com naturalidade e leveza para nos sentirmos bem e dispostos. Exercício também é um ato de cuidado de si e traz enorme bem-estar. Por certo que beleza é uma monte de coisas, mas não o que vende a indústria cultural. Podemos encontrar nossa beleza fora dos fetichismos e das relações de consumo. Então, não violentemos nosso corpo e não vivamos em função de discursos externos opressores. Por outro lado, não podemos olvidar este bem físico, continente da nossa existência. Nem gordura nem magreza. Beleza é se respeitar.