Não se trata de “competição de tragédias”

Montagem de Cássio Venturi

Alguns temas são tão áridos que dá muita preguiça de os enfrentar – este é o caso agora. Porém, mais do que a complexidade do tema, a minha preguiça advém do meu compromisso em lançar um pouco de lucidez sobre um debate quando as pessoas são incapazes de enxergar o óbvio.  Mas alguém tem que fazer isso e esse alguém sempre sou eu. Então, vamos lá. Nestas últimas semanas, enquanto o mundo se queda perplexo com os atentados na cidade-luz, o sudeste do Brasil afunda – literalmente – num mar de lama (tóxica). Os estados de Minas Gerais e do Espírito Santo perderam suas principais bacias hidrográficas e a lama, agora, chegou ao mar, num santuário de tartarugas e vila de pescadores. Imaginem quantos animais morreram no caminho da lama, quantas aves, quantos peixes, quantos mamíferos… e, agora, as tartarugas.

Imaginem toda a flora… Toda a vegetação, todas as plantas mortas. Os rios desapareceram. O rio doce está morto. E quem chorou no seu funeral? As pessoas da tribo Krenak, que vivem numa reserva indígena na qual o rio doce era fundamental para sua subsistência. Todavia, não choram apenas porque não conseguirão sobreviver sem o rio; sua relação com ele não é utilitária-instrumental… Choram pelo rio. Na sua língua, a velha índia chora cantilenando ao longo da margem de um rio que não mais existe… Ela sabe que, se um rio morre, tudo naquela terra morre também, inclusive, as pessoas… mas ela não acha que a vida das pessoas é mais importante do que a vida das aves, dos peixes, dos mamíferos, das plantas, do rio… Ela vê que a vida é una, e só pode ser se for assim.

Mas não sabem disso os debatedores de feicebuqui. Desde que a barragem da empresa Samarco rompeu em Mariana-MG, a mídia brasileira ignorou solenemente o fato ou, quando muito, tratou o acontecido como uma fatalidade. “Tragédia”, nestes tempos, parece ter se tornado uma palavra coringa, que serve para mobilizar o sentimentalismo dos tolos, e, ao mesmo tempo, inviabilizar qualquer reflexão crítica, revoltas e pedidos de providências. Temos muitas tragédias. Ocorreu, então, que, para a sorte e o regozijo da grande mídia brasileira, atentados reivindicado pelos ISIS em Paris assombraram todo o mundo ocidental destruidor de rios que se crê civilizado.

Um prato cheio – antes de sangue do que de lama tóxica, já que os irmão Marinho possuem business com a Samarco. É preciso proteger o valor máximo de nossa era. Você não sabe qual é? Definitivamente, não é a humanidade. Além disso, a Samarco construiu essa barragem para a Vale (ex rio doce), empresa que foi vendida por um preço ridículo para encher os bolsos da privataria tucana na vergonhosa era FHC. A grande mídia, tucana e cheia de business, ganhou na loteria das tragédias. Que oportuno esse ataque do ISIS! Poderiam noticiar isso 24h por dia e fazer os tolos se esquecerem da lama.

Acontece que a lama é renitente e não se deixa esquecer assim tão fácil… continua avançando sobre tudo, sobre todos nós. Diante desse cenário, diversas pessoas começaram a colorir suas fotinhos de perfil no feicibuqui com as cores francesas, pois Zuckerberg não tardou em disponibilizar a ferramenta – afinal, sabemos como o fb é ativista, comprometido com causas humanas. Ato-contínuo, vieram os patriotas, dizendo que era um absurdo colorir a foto com a bandeira da França quando o Brasil passa por uma tragédia muito maior. Aí, ouviu-se tudo quanto é tipo de desculpa: que não tinha ferramenta na rede social pra colocar a bandeira de Minas na foto (really, bitch?), que uma coisa não anula a outra, que estavam sensibilizados porque pessoas (leia-se: franceses) haviam morrido… até que começaram a utilizar o argumento de que não se faz “competição de tragédias”, pois todas as tragédias são igualmente trágicas, terríveis e importantes, de modo que cada qual deve escolher a que lhe aprouver para se lamentar, chorar e se indignar. Assim, teve quem adotou uma postura tão conciliatória, que colocou as bandeiras da França e de Minas Gerais sobrepostas na foto de perfil. Combinar brie com pão-de-queijo é uma coisa… mas essa combinação é o apogeu do mau gosto.

Pois bem… Eu, implacável como sempre, sinto informar a você que colocou bandeirinha da França no fb, de que você é alienadx. Faça um favor a si mesmx, pense! Vá se informar um pouco antes de sair usando as ferramentas que o Mark te dá. Não se trata de competição de tragédias – trata-se de refletir sobre esses fatos, para, a partir da reflexão, do pensamento, compreendermos suas causas. Não conseguiremos devolver a lama para detrás da barragem, nem ressucitar os mortos daqui ou de Paris… Então, o que nos cumpre? Pensar e agir a partir do pensamento, para que o mal não se repita ou possa, ao menos, ser mitigado. Você de bandeirola francesa é alienadx e não sabe o que diz pois não faz a menor ideia do que seja o ISIS, nem que a França é um dos países mais perversos do mundo. Isso mesmo, la belle France est le mal. Toda essa mentira calhorda que o mundo engole desde 1789 de liberdade, igualdade e fraternidade tem escamoteado os mais atrozes ataques a seres humanos, desde o massacre do Haiti. Sabe por que o Haiti é o país mais miserável da América? Porque a França dizimou os negros que se atreveram a acreditar em liberdade, igualdade e fraternidade. Como se atreveram? Essa tríade dos valores modernos é apenas para gente – branca, civilizada. A colonização francesa em África não foi diferente, assim como sua “política” externa em países como a Síria. Sempre exploração, morte, devassa, destruição.

E por falar em Síria, por que a bandeira deste país, que está completamente destruído pelo fundamentalismo, nunca esteve na sua foto de perfil? Por que também não está a bandeira da Nigéria, alvo constante de ataques jihadistas? Nem mesmo a bandeira do Líbano, país um pouco mais rico que sofre ataques, eu vi aparecer por aí… Esses ataques à França são resultado do que ela própria produz de barbárie, juntamente com os sempre protagonistas EUA, que criaram o ISIS… De onde vêm as armas que eles usam? Pode apostar que não são feitas numa caverna do Afeganistão… Então, tudo bem se você quer se compadecer pelos mortos de Paris, mas colocar a bandeira da França é se dizer conivente com a França e tudo de terrível que ela tem feito pro mundo, abraçando seu discurso vitimista. Quer se solidarizar à dor das pessoas? Vá lá, mas não homenageie um Estado assassino. Dá pra entender isso ou é muito para a sua cabecinha?

Uma bandeira representa um Estado-nacional… Quando você coloca a bandeira da França, está apoiando os discursos do Estado. Que tal colocar a foto de uma das pessoas mortas? Enquanto estava viva, por favor, que já chega de tanto mal gosto. Se assim for, entenderei que você não é burrx, nem alienadx, nem manipuladx pela grande mídia, mas que só está chocadx e compadecidx da dor da francesada cantando a marselhesa e dos ricos turistas.Porém, ainda assim, desculpe-me:  subsiste a crítica do pessoal que insiste em que você olhe para a lama.

Por que a morte de gente europeia, franceses, e de turistas que podem pagar uma viagem para a cidade mais cara do mundo te sensibilizam mais do que a morte de outras gentes, como sírios e nigerianos? Mortes de brasileirxs que ocorrem todos os dias por aqui… Aposto que você não sabe que a PM paulista mata mais do que qualquer grupo jihadista ao redor do mundo. Por que nunca vimos você se revoltar com a morte de indígenas? Sinto muito, mas você é sim eurocêntrico, e sobrepõe humanidades, hierarquizando sua relevância. Você não sabe disso e não vai admitir, mas é justamente em momento catárticos, como as tragédias, que nossos valores mais recônditos se revelam.

Eu, pessoalmente, sinto muito pelo pessoal que morreu sim, mas essa comoção, esse sofrimento, essa bandeira na foto do perfil revelam o que te mobiliza e, consequentemente, revelam também tudo o que não te mobilizou até hoje. O que te mobiliza e te sensibiliza revela os seus valores. Então, não me venha com papo furado. A denúncia que fizeram contra sua idolatria francesa em detrimento de outras vidas é totalmente válida. Admita, pois admitir é sempre o primeiro passo de desconstrução de mazelas interiores, como o racismo.

Por fim, resta ainda uma advertência: basta de especismo! Não suporto esses discursos que só consideram trágicos eventos que matam pessoas, como se a vida humana fosse superior às demais. Vão de retro com esse cartesianismo! Como é possível imaginarem que é mais triste um evento que mata dezenas de pessoas por obra da própria sociedade burguesa ocidental capitalista com a qual elas eram coniventes, do que uma catástrofe que mata MILHÕES de plantas e animais? Que destrói rios, mar, e todo o ecossistema? Ainda que fosse uma “competição de tragédias”, o mal do mar de lama não tem parâmetro de comparação com os atentados parisienses. Mas não isso é uma competição de tragédias, é um chamado à consciência.