Paredão no Planalto: O BBB de Brasília

Já se disse outrora que a vida imita a arte. Ledo engano. Desde o surgimento da Televisão houve quem acreditasse no poder profético das telenovenas ou dos seriados. Eu sempre apostei na força profunda e reveladora dos reality shows.

Ora, claro que devo começar com uma confissão… também eu já fui um dia expectador desse tipo de lixo da sociedade de massas. Há adolescentes que lêem Proust, que declamam Shakespeare, há jovens que traduzem Goethe do Alemão… eu fui apenas uma criança tola e inútil, vulnerável aos sedutores encantos (e ardis) da indústria cultural, apenas mais um de milhares de idiotas que ficava acordado até tarde e morria de sono no dia seguinte na escola. Claro que o avançar da adolescência e o início de uma vida adulta trouxeram algum juízo ou melhor gosto, algum esmalte de cultura, um diploma na parede, mas no fundo, o incômodo, que posteriormente soube estar previsto em um livro de Orwell, nunca me abandou completamente em todos esses anos. Somos todos uns otários assistindo a uma simulação babaca, semi-teatralizada e tétrica de vida real. De fato, a arte não mais explica a vida.

Pude crer nisso muito cedo, num desses raros momento de auto-crítica precoce, quando vi a família brasileira, em toda sua santa ingenuidade, sentada confortavelmente em seu sofá diante do seu altar doméstico, ssendo cobaia de um fantástico e pioneiro experimento midiático-psíquico-filosófico-social, a que na época chamou-se Casa dos Artistas. Desde então, os reality shows, buscaram novos personagens, simularam novas experiências e exploraram até mesmo outros cenários, como a vida campestre, talvez atrás de um filão do vasto e crescente público do sertanejo universitário. Tornaram-se, talvez, a epítome da vida, e porque não dizer, já que o próprio título ostenta, a medida e o parâmetro da realidade. E para fingir que os anos me curaram da ignorância e esbanjar minha falsa cultura, nada mais adequado do que lembrar aqui da Sociedade do Espetáculo de Guy Debord. Mas, o que nem o intelectual francês seria capaz de imaginar, é que o reality show, já bastante ultrassado, agora, como seria de se esperar, e quem sabe em uma última e desesperada tacada, chegou até mesmo à Praça dos Três Poderes. É o fim da picada (que aliás, ultimamente, transmite até microcefalia).

Talvez parte disso possa ser explicado pela queda na audiência das últimas experiências midiático-laboratoriais (como podemos chamar para fins mais acadêmicos os reality shows) empreendidas pelos canais de TV, além é claro, da dispersão do facebook, a ameaça do Netflix, ou mesmo o fenômeno inexplicável e sobrenatural de uma novela bíblica brincando de Egito Antigo. Tudo isso, longe de provar algum possível sinal de amadurecimento de público, provam, no fundo, o triunfo da ignorância, alimentados sobretudo pela guerra interminável da audiência e pelas batalhas do horário nobre, pelas curtidas de facebook ou compartilhamentos de Twiter. Quando o reality show alcança a política, é porque realmente a vida perdeu completamente a graça. Não porque a política seja sagrada, pura, intocável. Muito pelo contrario, a política sempre foi conhecida pela sua profunda devoção ao profano e sua imensa vocação para a putaria. O que surpreende é pensar que quando a sacanagem política vira o único divertimento ou esperança de nossos dias, o centro de nossas rotinas, quando o espetáculo político torna-se mais interessantes e excitante que a sacanagem da vida real, é porque nossas vidas andam mesmo mais miseráveis do que quando nos sentávamos diante do sofá para saber quem tinha trepado debaixo de um edredom. Nunca pensei que diria isso, mas acho que tenho saudades de quando o que se ouvia em uma banca de jornal eram uma piada de time, uma reclamação do governo e uma fofoca de novela. Alienação por alienação, que ao menos seja divertida, ou então inofensiva. Daqui a pouco até a Sonia Abrão vai se meter a fazer comentário político.

Mas não vim aqui para gastar meu já tão conhecido pessimismo. Venho para trazer boas notícias. Desde que a novela do Paredão em Brasília começou, há quase uma semana, fontes ligadas à mídia, sugerem uma possível escalação de Pedro Bial para a cobertura do Impeachment, afinal, ninguém entende e traduz melhor do que ele, uma eliminação! Isso mesmo, Pedro Bial! Com coberturas e chamadas a cada intervalo, entrevistas nas ruas e torcida, a audiência está garantida e a diversão da família brasileira é certa. Depois de ver frustradas todas as suas últimas experimentações televisivas, mergulhada em uma crise de audiência histórica, a Rede Globo espera não apenas recuperar os índices daquele longínquo BBB 1 como também quebrar o recorde de audiência da Final do Masterchef.

Aliás, os paralelos entre vida e arte, ou melhor, entre política e espetáculo não param por aí. O apoio do Congresso BBB, promete deixar a disputa ainda mais eletrizante. Ou o Big Brother televisivo foi realmente um Oráculo ou então, escolhemos o pior dos mundos como modelo. Inclusive, recuperando da minha memória os termos e conceitos elaboradíssimos que norteavam o enredo patético da “casa mais vigiada do Brasil” parece que não há limites para a brincadeira, o que, afinal, prova que, de fato, escolhemos o enredo errado para a nossa política e nossa democracia a difícil e interminável prova de resistência para o líder, o colar da imunidade da oposição, o confessionário das delações premiadas, as panelinhas combinando voto, o traidor da última hora, a prova da comida para os habitantes da casa, um barraco na segunda à noite, além é claro, da putaria que já faz parte de qualquer enredo (mas no caso, sem os corpos malhados e os banhos de piscina). Até cartinha de desavença houve. Com tanta intriga, com tanto jogo, alianças, roupa suja e falsidade, agora só faltam, abrirem os votos da eliminação pelo telefone ou SMS (já que pela internet certamente já deve estar rolando). Difícil crer, ou aceitar, que o que melhor traduz nossa Democracia, nossa política e nosso Estado de Direito seja um reality show ultrapassado.

Bem, muitos talvez dirão que ou eu sou um completo imbecil viciado em televisão ou um completo idiota evocando metáforas televisivas para explicar um país. Ora, do mal da televisão já me curei há anos, e não tenho culpa de que, no momento, tenhamos chegamos a um tal fundo de poço que a melhor tradução da nossa política (sobretudo do nosso Congresso), seja uma imitação barata de BBB (Bala, Boi e Bíblia).

Talvez não esteja longe o dia em que a nação, numa terça-feira qualquer, há de selar seu destino político em uma apertada decisão de paredão, embalada por um musiquinha cafona de Paulo Ricardo, com clima de forçada ansiedade e narrada por um discurso profundamente brega, falsamente comovente e pretensamente erudito do Pedro Bial. No momento, isso é o mais próximo de alguma simulação de vida inteligente que se pode chegar: um discurso de eliminação de um Pedro Bial. Será lindo!

E não se esqueçam, a ligação tem apenas o custo de uma chamada local!!