As não tão recentes problematizações para a América Latina

Grafite em Buenos Aires - Foto de Kevin Dooley

Nesse ano, uma publicação da CEPAL chamou a atenção para a estagnação do combate à pobreza na América Latina. No período de 2012 a 2014, a porcentagem da população pobre se manteve no mesmo patamar: 28%. O que significa que em 2014, 167 milhões de pessoas se encontravam na faixa da pobreza, das quais 71 milhões na extrema pobreza ou indigência na região.

Os esforços de 2002 a 2013 foram significativos, conseguindo contrair o Índice de Gini em renda de 0,542 para 0,486. As políticas anticíclicas realizadas pós-crise de 2008 contribuíram para prover maior proteção social, entretanto, as debilidades fiscais posteriores acabaram pressionando por corte de gastos e, consequentemente, de resultados do combate à pobreza.

O Banco Mundial trouxe um aspecto fundamental para a discussão: apesar das instituições terem reduzido a pobreza em larga medida na primeira década desse século, elas não ainda foram direcionadas a alterar a estrutura de oportunidades para essas pessoas no longo prazo. A avaliação foi de que essa melhor distribuição na primeira década acabou alterando o formato do contrato social. A ascensão tem impacto direto na coesão social, uma vez que o número maior de cidadãos com poder aquisitivo gera  pressão por suas demandas nas políticas econômicas. Desse modo, o investimento em capital humano habilita essa nova classe a se direcionar para campos de maiores retornos no longo prazo. Sob o imperfeito mercado de crédito, a classe mais pobre não tem renda tampouco poupança para manipular investimentos fixos de longo prazo, mas com o inchaço da classe média, seria possível ampliar o mercado creditício e distribuir os custos de forma a expandir o acesso às oportunidades econômicas em teoria.

Um obstáculo que surge nesse processo é o fato óbvio de que essa “nova classe” tem desejos de consumo mais sofisticados, o que implica em mais importações. Para o BM, isso cria um círculo virtuoso de consumo global. Porém, isso engendra novos problemas que precisam ser ressaltados. O crescimento econômico mais distribuído propicia um ambiente de inclusão, mas nos últimos anos, ainda milhões de pessoas permanecem na indigência na América Latina. Quando os governos recuam ou estagnam na qualidade dos serviços públicos básicos, estão apostando que essas pessoas que ascenderam economicamente podem agora arcar com o serviço privado, no entanto, assim estão marginalizando ainda mais as camadas modestas e vulneráveis da sociedade.

Isso nos traz a recente dinâmica da Argentina. O presidente Mauricio Macri anunciou o fim dos impostos às exportações agropecuárias, o que pode contribuir para maior crescimento econômico, além de reverter a escassez de dólares no país. Entretanto, isso pode também já sinalizar que o governo pretende mover suas políticas de acordo com os anseios de produção e consumo da classe média que o elegeu, além de políticas fiscais contracionistas, mantendo talvez a estagnação no combate à extrema pobreza.

A América Latina emergente está frente a uma problemática dolorosa para o desenvolvimento: substanciar e fortalecer mais a “classe C” recém formada ou distribuir o poder econômico até o limite atingindo os milhões que ainda estão na extrema pobreza? É um questionamento que não tem resposta rápida, muito menos ausência de consequências pesadas.