Honestidade artística e intensidade brutal: o legado de Lemmy Kilmister

Foto de Dena Flows

Com raríssimas exceções, a maioria das notícias veiculadas nos principais jornais televisivos ou impressos sobre a morte de Lemmy Kilmister (1945-2015), compositor, vocalista e baixista do agora extinto Motörhead, focaram no que os jornalistas, em tom quase sempre moralista e de alerta, chamaram de “uma vida de excessos”. Com isso, logo se revelava a estratégia argumentativa rasteira e de gosto duvidoso por meio da qual se buscava criar uma relação de causa e consequência entre a tal da “vida desregrada” do músico e a sua morte. O fato é que, ao darem tamanha importância à vida pessoal de Ian Fraser Kilmister, jornalistas caíram na velha esparrela de pouco ou quase nada falarem da música que Lemmy criou, e passaram incólumes ao catálogo imenso de composições interessantes que o Motörhead deixou como legado para a cultura popular mundial.

Lemmy fundou o Motörhead em 1975, após ser demitido da banda inglesa Hawkwind, ainda em atividade. Em quarenta anos de carreira, o Motörhead lançou vinte e dois discos de estúdio e nove discos ao vivo, sem contar inúmeras compilações e singles. Dentre esses discos, o que talvez lhes tenha rendido maior fama foi o excelente Ace of Spades, quarto disco de estúdio da banda, lançado em 1980. Além da faixa título, músicas como “Shoot you in the back”, “Fast and Loose”, “We are the road crew”, “Dance” e “Bite the Bullet” são algumas das composições que resumem bem o estilo musical agressivo, sujo e alheio a concessões de toda ordem, e que fez do Motörhead uma influência incontestável dentro das mais variadas ramificações do rock desde então. O fato de que várias dessas músicas ainda eram presença constante nos set lists dos shows ao vivo da banda dá a medida da maneira como muitos dos interesses musicais do Motörhead estão condensados de modo definitivo nesse disco.

Além de Ace of Spades, merecem uma audição atenta álbuns de estúdio como Motörhead (1977), Bomber (1979), Iron Fist (1982), Another Perfect Day (1983), Bastards (1993), We are Motörhead (2000), Kiss of Death (2006), The Wörld is Yours (2010) e Bad Magic (2015). Quanto aos registros ao vivo, sempre impecáveis do ponto de vista da execução musical e da qualidade da gravação, vale a pena ouvir atentamente Nö Sleep at All (1988) e os dois volumes de The Wörld Is Ours, lançados em 2011 e 2012. O que esses shows registrados ao vivo mostram principalmente é que, apesar das mais de duas décadas que os separam cronologicamente, Lemmy parecia, de fato, musicalmente incansável. Além disso, fica claro nesse material ao vivo que o Motörhead jamais sacrificou sua consistência musical e a sua vontade de tocar alto, rápido e com pegada forte, em detrimento de qualquer forma de reconhecimento fácil e de fama passageira. Nesse sentido, a banda sempre manteve sua postura coerente de lançar o que queria e quando queria, o que obviamente ajudou o Motörhead a conquistar o respeito de inúmeros fãs do power trio inglês. O Motörhead tinha ainda a fama de ser uma das bandas mais altas do mundo e o próprio Lemmy brincava, ao apresentar a banda, dizendo que ninguém dormia enquanto eles estavam no palco.

Curiosidades e epítetos à parte, fica claro nos discos de estúdio e registros ao vivo do Motörhead que, em suas composições, Lemmy e seus parceiros musicais exploravam nas letras os motivos dos excessos da bebida, das drogas, do sexo e da violência não como ideias jogadas, como imagens do potencial autodestrutivo dos indivíduos quando postos diante de si mesmos. Para os ouvintes realmente atentos, as músicas do Motörhead desvelam em alto e bom som pesado as agruras que açoitam a consciência individual “nas horas solitárias quando a verdade machuca”, trecho da balada I ain’t no nice guy after all, que conta com as participações de Ozzy Osbourne e Slash. E esses dissabores levam o indivíduo a abraçar as mais destruidoras formas de escapismo existencial. Lemmy cantou isso tudo com honestidade artística rara e a intensidade brutal das grandes lendas do rock.

 

Ace of Spades: https://www.youtube.com/watch?v=H42FmyDBmWA

Behind the Music: Motörhead: https://www.youtube.com/watch?v=5_Eu-FvVVLo

Motörhead – Overkill (live at Rock am Ring 2015): https://www.youtube.com/watch?v=scMX20odO6g