Passa o tempo

Foto de Nádia do kitchenfordummies.com

A gente se dá conta do envelhecimento quando testemunhou o surgimento, no mundo, de coisas que, para os jovens, sempre estiveram aqui. Ao passar por uma edificação sobre um terreno que você se habituou a ver descampado na infância e comentar isso com alguém mais jovem, sente-se o peso da idade. Assim também é com aparelhos eletrônicos, equipamentos, músicas, costumes, moda e produtos. Hoje abri um pacote de bolacha “passatempo” e estranhei o seu tamanho… Os biscoitos estão bem menores do que eram nos primeiros anos de lançamento; praticamente, foram reduzidos à metade. Lamentei o afã por lucros da indústria e dei a primeira mordida (primeira de duas, diante de um biscoito tão pequeno…rs).  Espantada com a mudança de gosto, fui ao rótulo de compreendi: “recheio sabor chocolate”.  Certo dia, eu voltava da escola, passando pela pracinha da Penha, e fui abordada por uma moça com prancheta na mão… Ela me disse que estava fazendo uma pesquisa de opinião para uma empresa que iria lançar um novo produto, e me perguntou se eu estava disposta a dar minha opinião. Achei a moça bastante confiável e aceitei, inclusive, porque vi outros coleguinhas da escola participando da pesquisa… Então, ela me deu uma amostra de bolacha recheada e me pediu para experimentar… Eu mordi e me apaixonei…rs. Que coisa maravilhosa era aquilo… Diferente de todos os biscoitos de chocolate recheados que eu conhecia, aquele não era de chocolate, com recheio sabor chocolate: o biscoito era branco e o recheio tinha gosto de chocolate alpino. Uma combinação perfeita. Dei a minha opinião para a pesquisa e me senti importante quando percebi que havia opinado no lançamento da bolacha “passatempo” meses depois. Desde então, fiquei viciada no biscoito… comia todos os dias… E, realmente, o recheio era de chocolate alpino, assim designado no rótulo, além do biscoito ter quase o dobro do tamanho… “Passatempo” era uma lembrança boa, tinha gosto de novas amizades, de mudança para São Paulo, de descoberta do amor e da sexualidade… Gosto dos meus doze anos… E, hoje, a ânsia da Nestlé por mais e mais lucro me frustrou, porque achei que uma mordida me traria essas lembranças, e não trouxe. Não posso sequer sentir o gosto remoto da minha meninice… Tudo por causa do capitalismo… Pensei, então, que, em algum país do mundo, a bolacha “passatempo” possa ter outro nome, e a mesma delícia dos anos noventa… Não custa ter esperança, afinal, TODOS os produtos Nestlé são infinitamente melhores no exterior. Quem já experimentou o chocolate da marca vendido na Europa sabe o quanto tem gosto de paraíso… É um êxtase, um desbunde… Melhor que Lindt… Sério. E por que o chocolate que comemos aqui é este lixo? Para os brasileiros, a empresa entrega qualquer porcaria, já que acredita que nós, selvagens, estamos muito distantes da Suíça para saber o gosto de um bom chocolate… Habituados a lactas, garotos, pans, arcors e afins, obviamente, jamais sentiríamos a diferença. Engolimos qualquer gordura hidrogenada com açúcar e acreditamos que estamos comendo chocolate… Por isso, a Nestlé do Brasil tem um padrão de qualidade bem inferior e pode lucrar muito mais, explorando a mão de obra pouco qualificada daqui… Vocês nunca notaram o quanto o “Kit Kat” vendido no supermercado não se compara ao comprado fora do Brasil? A graça do “Kit Kat” é justamente o chocolate perfeito… sem isso, ele não passa de mais um “Bis”. É porque a Nestlé do Brasil passou a fabricar nosso “Kit Kat”. E eu parei de comprar. Fiquei com ódio da Nestlé ter se instalado no Brasil, num sentimento classe-média-sofre… E mentalizei a maldita fábrica, que, em Ribeirão Preto, fica em frente à casa onde passei minha infância… Lembrei com carinho daquela paisagem de imenso descampado verde, que parecia anunciar a infinitude do mundo toda vez que a gente abria o portão… Crescia, na beira da rua, capim-limão, que a gente catava pra fazer chá… Aquele mato tinha cheiro de vida, e trazia uma cobra ou um sapo, de vez em quando, pra gente aprender sobre a natureza… Era tão bom andar de bicicleta e jogar queimada diante dele, porque quase nenhum carro passava… E, à noite, a gente fazia uma fogueira, para contar história, dar risada, e assar batata… Cada um levava sua batata, e todo mundo trazia um sal e uma margarina… E aquilo era suficiente para a mais plena felicidade… Hoje, seria impossível fazer qualquer coisa dessas… A Nestlé é o centro do bairro, tudo gira em torno dela… O movimento é intenso, e beleza da calmaria morreu.

Eis o progresso, o tempo que muda todo o tempo… O problema é que nosso tempo muda e muda o mundo de acordo com os interesses do Capital… É o capitalismo que move e muda o mundo… Tudo se transforma conforme sua vontade. Passado, presente e futuro são domínios seus. Eu odeio a Nestlé do Brasil… Ela aniquilou meu bairro… Não posso sequer ir até lá para ter uma nostalgia da minha infância… Se for, terei meu coração partido pelas mudanças… Pois é, crianças, estou velha… Essa fábrica, que, para vocês, sempre esteve lá; para mim, não… A Nestlé roubou também o gosto da minha adolescência… Nem adianta comprar o biscoito “passatempo”, pois ele não tem gosto de nada… Estou tão velha, crianças, que opinei antes do lançamento dessa bolacha, que, para vocês, sempre existiu…  A minha idade avança e meu desgosto do mundo só aumenta. O tempo passa… Passa o tempo… Passatempo… No ritmo do Capital.