O Homem de Surya – A Crônica do Metrô

Foto de Tiago Celestino

Domingo geralmente é um dia incomum na minha vida, pois costuma ser o dia da semana que eu volto para Franca depois de visitar meus pais e a minha namorada em São Paulo, ao menos duas vezes por mês. O caminho da volta é quase sempre o mesmo: meu pai me deixa na Estação Tamanduateí, lá eu  me desloco até a Estação Ana Rosa e faço uma baldeação simples dentro da própria estação e pego a linha 1 – azul sentido Tucuruvi e desço, por fim, na Estação Portuguesa-Tietê, onde embarco na plataforma 20, sempre às 00:30, num ônibus da Cometa.

Num desses domingo atípicos, após deixar minha namorada na Vila Prudente, aproveitei e embarquei na estação de metrô por lá. Eu pensei: “O que são 5 minutos a mais de metrô nessa viagem que dura já 40 minutos sob a terra?”. No entanto, eu devia ter me lembrado do aviso dado pelo taxista na obra 1Q84, de Haruki Murakami, que nas primeiras páginas alerta a protagonista sobre o perigo de fugir da rotina:
Quando se faz algo incomum, as cenas cotidianas se tornam… Digamos que se tornam ligeiramente diferentes do normal. Isso já aconteceu comigo. Mas não se deixe enganar pelas aparências. A realidade é sempre única.

Pois bem, entrei pelas portas de vidro e desci para a plataforma única de embarque, fato que só ocorre nas estações finais de cada linha. Ao me deslocar pelo corredor cheio de mapas percebi que um homem de pele escura e feições não tão brasileiras me olhava, e eu claro passei a observá-lo. Ele então veio até mim, e num português bem arranhado me disse: Brászz, enquanto sacava do bolso um mapa de mão da malha viária da Grande São Paulo e apontava, com o indicador da mão direita, a famosa estação da linha vermelha. Claro, a magia dos estrangeiros no metrô não poderia ignorar o Brás.

Eu não sou entendido de fisionomias ou sotaques, mas aquele senhor não tinha o aspecto latino ou indígena que a maioria dos estrangeiros no metrô, e principalmente os que iriam da Vila Prudente até o Brás naquele horário, possuíam. Tentei passar instruções para o moço, que me parecia indiano, num português bem tranquilo e de ritmo lerdo, quase como uma palestra do Suplicy. Aproveitei minha ascendência italiana para gesticular o máximo possível, mas quando se trata de levar um indiano da Vila Prudente até o Brás eu precisaria superar a indicação com os dedos no ar. A primeira tentativa, óbvia, que um universitário como eu tentaria foi o clássico: Do you speak english? E para a minha surpresa o moço com traços indianos não falava inglês. Gesticulou com a cabeça num movimento horizontal da esquerda para a direita.

Como o português dele se limitava às palavras: Brás e Seis meses senti a pressão aumentando com uma comunicação tão falha. Como a maioria, logo tive meus pensamentos em culpar a vítima: Como um indiano não fala inglês? Os maiores callcenters dos Estados Unidos ficam lá, não é possível. Cogitei que ele fosse da casta dos intocáveis, mas logo reparti essa estupidez que meu cérebro e pouco conhecimento me sugeriram. Como se num país de mais de um bilhão de habitantes todas as castas superiores devessem falar inglês. Era preconceito demais da minha parte.
Tive que admitir a realidade e a minha falta de criatividade para lidar com o moço. Num ato falho, disse para ele: “Follow me”, enquanto fazia o gesto universal com a mão que representa o pedido de acompanhar e entramos no metrô.

Em português perguntei de onde ele era, e, para minha surpresa, houve resposta. Surya (som de Sh). Logo matei minhas suspeitas: pela sonoridade da palavra realmente devia ser da Índia, mas não arrisquei qualquer palpite. Se ele fosse do Paquistão eu estaria arranjando um inimigo por 40 minutos embaixo da terra e teria que pedir desculpas gritando em pleno metrô a famosa frase Pakistan Zindabad, dita nas estações de rádio por Muhammad Ali Jinnah quando este Estado se tornou independente da Índia e eu também não tinha nenhuma peça de roupa cor de oliva para mostrar simpatia por sua religião caso fosse paquistanês muçulmano.

Era perigoso demais tentar brincar de certo ou errado com um estrangeiro dessa região, onde feridas graves ainda palpitam em torno de um desastre nuclear. Não toquei mais no assunto, apesar de ser um prazer imenso para mim poder mostrar para ele tudo que eu sabia sobre seu país. Isso era muito importante, pois demonstra um certo respeito pelas raízes das pessoas. Quando eu contava para alguém em Franca que eu era de Santo André e essa pessoa sequer imaginava onde ficava eu me sentia ofendido, de verdade; até porque não é qualquer um que passa na Unesp sem ter estudado a geografia local. Assim, sendo responsável por qualquer erro de palpite que cometesse, preferi ficar quieto e esconder o pouco que sei sobre a Índia.

Descemos na Estação Ana Rosa, e tentei explicar para ele que ele teria que descer na Sé e eu não poderias mais acompanhá-lo, mas creio que ele não entendeu. Assim, quando chegamos na Sé, gesticulei para ele descer e apontei para a placa, de dentro do metrô, Corinthians-Itaquera. Ele desceu e me agradeceu com um sinal de cabeça. As portas do metrô fecharam e fiquei observando o sucesso da comunicação muda. Mas o homem, ao invés de subir as escadas e ir para a linha vermelha, simplesmente atravessou a mesma plataforma e embarcou na linha azul novamente, no sentido contrário. Fiquei preocupado com o moço, já eram 23:40 e ele teria pouco tempo para perceber o erro e consertá-lo. Certas barreiras nem a comunicação quebra.