A dialética do (auto)conhecimento

Foto de Hernán Piñera

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”, já dizia, sabiamente, Vinicius de Moraes. Sim, encontramo-nos e desencontramo-nos diversas vezes, com as inúmeras pessoas que cruzam o nosso caminho. Mesmo assim, é impossível viver sem passar por essas situações, seja com os outros, seja com nós mesmos.

O ponto central de um encontro é o reconhecimento. Quando dizemos que encontramos “fulano”, pressupõe-se, obviamente, que já conheçamos essa pessoa. É o ato de se encontrar que nos dá a certeza de que conhecemos alguém — o primeiro contato não é um encontro; é uma identificação. Por outro lado, só se pode encontrar aquilo que se perdeu, o que ficou no caminho, o que se desencontrou. Desse modo, encontro e desencontro são parte fundamental de um mesmo processo de conhecimento e reconhecimento. E, se esse processo acontece quando conhecemos alguém, acontece também — e com mais frequência — quando tentamos conhecer a nós mesmos.

Para se conhecer, é preciso se perder. É preciso tentar. É preciso mudar. É preciso arriscar. O ato de nos encontrarmos com nós mesmos exige, primeiramente, que a gente se perca no caminho, que a gente se desencontre, que a gente troque as estruturas que, um dia, montaram quem nós somos. A construção do nosso eu não é um processo homogêneo, linear, que segue um caminho único de certezas e convicções. Na verdade, o processo de autoconhecimento é doloroso, gera angústias e confusões, mas extremamente necessário.

Desencontrar-se de si mesmo é difícil porque mexe com as bases sobre as quais nós formamos nossa identidade. No entanto, o que não se fala é que essa identidade não é algo fixo, mas se altera na medida em que experimentamos situações novas, mudamos de ambiente, entramos em contato com pessoas diferentes, ou seja, na medida em que nos desencontramos do nosso eu. Não há como fugir do desencontro; na verdade, quanto mais o evitamos, quanto mais nos fechamos, tentando proteger, em vão, proteger o nosso “eu”, mais ele se torna difícil.

O amadurecimento da nossa identidade, o processo de auto-descoberta só acontece através dos desencontros com as nossas certezas. Por mais que estejamos confortáveis com as nossas ideias de sempre, é necessário passar por esses momentos. Isso não significa que temos que abandonar as nossas bases, mas que é fundamental que estejamos abertos para as mudanças que podem — e vão — acontecer. Por mais paradoxal que possa parecer, são essas mudanças que vão iluminar o caminho do (re)encontro com nós mesmos.

A beleza da vida se enfeita com as tristezas das nossas experiências. Lágrimas e sorrisos são os dois lados que compõem o ação de se viver. É complexo, é doloroso, pode até deixar cicatrizes, mas só é possível nos encontrarmos depois de nos perdermos.

 

Texto da leitora Adriane Almeida (https://medium.com/@shinealight)