Pequena cartilha para o macho disposto a pensar

Beijo forçado de um Oficial da marinha americana comemorando o final da 2ª Guerra

Meu primeiro artigo do mês da mulher é direcionado aos homens. Sim, aos homens. Vocês, homens dispostos a refletir sobre o machismo, precisam urgentemente rever seus comportamentos. Enquanto o feminismo e a ruptura com a violência machista não se transformarem em práticas, estaremos muito longe da construção de uma sociedade menos contraditória e violenta. E, quanto mais eu convivo com os homens, mais eu percebo a importância de insistirmos neste debate. Eu afirmo categoricamente que todo homem é machista, pois foi constituído identitariamente assim. Mas isso não significa que os homens não possam lutar contra isso – lutar contra seus próprios impulsos e práticas cotidianas. Sabemos que já há, na internet, muitos textos com este teor, qual seja, apontar comportamentos machistas naturalizados na dinâmica social. Contudo, convivendo com homens, acredito que nunca é demais insistir nesse ponto, especialmente, quando notamos comportamentos violentamente machistas em homens que não se consideram machistas. Esta cartilha (não tão pequena), obviamente, não é direcionada para os porcos chauvinistas, que, provavelmente, são analfabetos estruturais ou funcionais. Como o próprio título já diz, esta cartilha é direcionada para os homens que estão dispostos a olhar para o próprio machismo e a pensar sobre isso. Assim, repensando suas práticas, quiçá, possam se tornar menos violentos. Apesar deste texto ser direcionado a todo e qualquer homem, especialmente, dirijo-me a quatro tipos de homens: ao bonzinho romântico, ao hipster descolado, ao esquerdomacho, e ao gay. Esses são os principais tipos de homens que creem piamente não serem machistas.  O primeiro é aquele que está sempre sonhando com um amor pra vida toda, apaixona-se perdidamente, escreve poemas, dá flores, até cozinha, é carinhoso e, muitas vezes, emocionalmente dependente das mulheres. Ele não acha que é machista porque não se vê maltratando uma mulher jamais… é o clássico “em mulher não se bate nem com uma flor”… Todavia, não percebe que essas relações pautadas nos clichês dos papeis de gênero, a projeção eterna da mamãe na mulheres com quem se relaciona, a obsessão afetiva, a atenção sufocante etc. são também formas de violência e de machismo.  O hipster acha que é muita vanguarda, um sujeito pós-moderno, além dos padrões conservadores da sociedade tradicional, antenado, descolado, e, por isso, pensa não ser machista. Porém, nos seus relacionamentos, reproduz a pior dinâmica de verticalização sexista, principalmente, no campo sexual, e, embora não se ache preconceituoso, ao vomitar suas pretensas verdades (pois é um sujeito cheio de opiniões sobre tudo), deixa escapar no discurso um monte de perversidades homofóbicas, transfóbicas e misóginas. O esquerdomacho é, para nós, mulheres comunistas e feministas, especialmente agressivo, pois promete ser um sujeito revolucionário, avesso ao capital e aos padrões de reprodução da sociedade burguesa. Então, tolas, acreditamos que o machismo está incluído em sua pauta de lutas, mas não precisamos conviver mais do que meia hora com ele para assistir ao pior comportamento machista possível. O sujeito não se acanha de nos paternalizar, cortar nossa fala, nos tocar e elogiar nosso corpo enquanto estamos concentradas numa discussão teórica ou na militância… Sério, não precisa ir nada longe… O machismo do esquerdomacho é tão drástico e óbvio, que ele não costuma nem lavar uma louça… Por fim, e muito importante, entre os homens que não se veem como machistas, está o gay. Simplesmente por haver rompido com a imposição heterossexual de uma sociedade machista, o gay acha que não é machista. Ledo engano. Para começar, romper com o padrão heterossexual não é romper com o binarismo e a heteronormatividade. A imensa maioria dos gays não suporta homens afeminados, pois o feminino é visto como inferior e depreciativo. Além disso, muitos declaram ter nojo do corpo feminino. Há maior misoginia que isso? Eu escolhi esses tipos porque acredito que podem abranger pessoas realmente dispostas a pensar sobre isso e a se tornarem machistas em desconstrução. Então, veja pelo lado bom: se você, homem, identificou-se com um ou mais destes tipos, eu acredito que você possa estar disposto a pensar e a rever seu machismo. Se não, quem sabe você também não possa ser um sujeito que pensa? Que tal tentar ler esta despretensiosa cartilha? Mas um aviso: se você discordar de algum item abaixo, achando que o que eu apontei como machismo não é machismo, mais um motivo para você repensar seus comportamentos, pois isso só provará o quanto você é machista sem se dar conta disso. Então, para te ajudar nessa empreitada, aqui estão algumas breves dicas comportamentais para você começar a aplicar hoje:

1 – Ouça às mulheres! Não é à toa que escolhi este como o primeiro conselho. Claro que é fundamental você aprender a ouvir a fala de uma mulher sem fazer interrupções, levantar a voz grave sobre ela, assumir um tom professoral no discurso, e ignorar ou ridicularizar o que ela está dizendo. Reconhecer a existência e a importância de outra pessoa passa pela escuta da fala em primeiro lugar. Isso é alteridade. Mas veja que eu não escrevi “ouça as mulheres”, e sim “ouça às mulheres” de propósito, pois quero que você entenda esse ouvir como prestar atenção. Atente à fala feminina e respeite seus conteúdos, pense sobre o que ela diz, pondere, reflita. E, no caso de uma feminista falando sobre feminismo e machismo, ACATE. Isso mesmo! Quando uma feminista te disser algo sobre o feminismo, você não tem como discordar, pois você não é mulher. Respeite a vivência de quem sofre os processos de opressão e violência. Você não tem que dar sua opinião sobre o feminismo. Se você acha equivocada alguma abordagem, ou muito radical, guarde para você. Aceite que, pelo menos em um assunto do mundo, o protagonismo não é seu. Seu papel diante da agenda feminista é tão-somente apoiar. Só! Se você não é capaz de apoiar, não se manifeste. Se as feministas estiverem debatendo entre elas, não se meta. Não se aproprie de discursos de mulheres antifeministas para ancorar seu machismo. Fique na sua e deixe as minas debaterem entre elas. Quando uma mulher te disser que algo é machista, uma fala, um comportamento, uma imagem, ACEITE. Não tente rebater, pois você estará apenas defendendo o machismo. Se for uma fala ou uma atitude sua, ouça, não diga nada, vá para casa e reflita. Quem sabe você é capaz de mudar… Apontarei alguns comportamentos machistas abaixo. Se você discordar, achar que estou exagerando, que isso não é machismo, APENAS PARE. Volte, releia, aceite que isso é machismo e pense a respeito, ok?

2- Mude sua linguagem! Não se dirija a um grupo de pessoas que incluir mulheres no masculino. Por exemplo: “boa noite a todos”. Diga: “Boa noite a todas e todos”. Professor, diga: “minhas alunas e meus alunos”. E assim por diante. Ao escrever informalmente, temos os recursos do x e da @: todxs, amig@s, alunxs etc. Ao se referir a pessoas trans, além de usar o nome social, utilize os artigos, pronomes pessoais e adjetivos na flexão de gênero adequada. Por exemplo, “Tammy é muito corajoso” ou “A Laerte é linda”.  Aproveitando: respeite a identidade de gênero, moço. Mulheres trans são MULHERES (feministas que discordam disso, aguardem meu próximo texto, obrigada). A linguagem é uma prática cultural assentada que revela valores. Não é algo gratuito e banal. Se a língua portuguesa é machista, isso é reflexo do machismo das sociedades lusófonas. Não precisamos reproduzir isso, podemos mudar nossas práticas de linguagem, ok?

3 – Não faça piadas machistas! Preste atenção nos discursos que objetivam perpetuar dominação e violência. A piada é um artifício importante do machismo, e precisamos combatê-la. Não faça piadas de mulheres, loiras, “bichas”, travestis etc. Sequer reproduza esses conteúdos. Repudie filmes e músicas com esse apelo.

4 – Não ria de piadas machistas! Se outros homens fizerem piadas machistas, demonstre seu incômodo. Não ria para socializar com outros machos. Esse é o comportamento social que sustenta, por exemplo, a cultura do estupro. Quem ri é tão vil quanto quem faz a piada. Seja intransigente e aponte a violência do seu coleguinha e/ou retire-se da conversa. Se for a TV, mude de canal. Se for a propaganda de um produto, evite seu consumo.

5 – Não julgue uma mulher pela roupa! Não julgue o caráter de uma mulher pela roupa que ela veste. Se é curta, decotada, justa, não significa um convite ao assédio. De outro lado, se a roupa dela não é nada disso, não significa que a mulher é celibatária. Não exija que a mulher seja feminina, usando roupas delicadas ou provocantes, maquiagem e acessórios, e, de outro lado, também não ache fútil uma mulher que usa tudo isso.  Cada mulher se expressa esteticamente como bem entende e isso não revela sexualidade, caráter, politização, erudição ou inteligência.

6 – Não faça comentários sobre a aparência das mulheres! Se a sua opinião não foi solicitada, nunca diga a uma mulher nada sobre a aparência dela. Comentários negativos são uma forma de abuso psíquico sério. Comentários positivos são assédio. Apenas elogie uma mulher se você realmente tiver intimidade para fazer isso. Não comente sobre a aparência de uma mulher com outras pessoas, principalmente, com outros homens. Essa é a clássica reificação do corpo feminino, que transforma a mulher num objeto para fruição masculina.

7 – Não assedie as mulheres! Não mexa com mulheres na rua! Jamais! Não aborde uma mulher desconhecida em lugares públicos, exceto se ela deixar bem claro, com olhares, sorrisos e gestos, que está receptiva à sua abordagem. Não pergunte nome, nem peça contatos, a não que que você já tenha desenvolvido uma conversa respeitosa com uma mulher que esteja confortável em falar com você. Nunca simplesmente chegue em ninguém, não incomode um grupo de mulheres interagindo, não se intrometa em conversas de mulheres sem ser solicitado. Não faça elogios gratuitos, não cante ninguém. Não dê presentes, flores, chocolates, a não ser que esteja em um relacionamento. NUNCA peça beijos, toques, afagos, abraços, sexo, a não ser que esteja em um relacionamento, e, mesmo assim, cuidado com a linguagem e a dinâmica relacional para não ser opressor. Nunca xingue mulheres, cis ou trans, principalmente, com ofensas tipicamente machistas, como “puta”, “vaca”, “vadia”, “vagabunda”, “traveco” etc. Não trate sua companheira como sua propriedade. Ciúme é algo para ser tratado no consultório do analista. Se você é ciumento, saiba que isso não é normal… Além de machismo, é patologia psíquica. Procure ajuda urgente!

8 – Faça serviços domésticos! As mulheres não estão no mundo para te servir, não são suas babás, cozinheiras e faxineiras naturais. NÃO ESCRAVIZE sua mãe ou sua companheira! Se você não sabe cozinhar, aprenda urgentemente. Toda pessoa precisa desenvolver essa competência mínima de subsistência. Faça tarefas domésticas espontaneamente, sem que ninguém precise te pedir ou te sugerir isso. É simples: bagunçou, arrume; sujou, lave. Não tem tempo? Ninguém tem, mas, na sociedade machista, as mulheres são obrigadas a arrumar, e vivem uma dupla, ou tripla jornada de trabalho. Não é saudável viver na sujeira e na bagunça, então, tenha iniciativa imediata de arrumar e limpar.  Não naturalize a função doméstica feminina. Se você vir uma mulher realizando alguma tarefa, comece a ajudar imediatamente. Cozinhe, lave sua roupa, e faça faxinas mais pesadas semanalmente. Uma dica: não passemos roupas, homens ou mulheres, porque isso é um desperdício de tempo e energia, galera. Mas, se você não conseguir e for um engomadinho, passe sua própria roupa. Se você morar com outras pessoas, independente do gênero, poderá organizar uma escala de responsabilidades.

9 – Seja pai!  Se uma mulher engravidar e você for o pai, saiba que a decisão de ter ou não x bebê é dela. A gestação é no corpo dela, o impacto mais significativo será sobre a vida dela, então, aceite que a decisão é dela e apenas a apoie integralmente naquilo que ela decidir. Não quer passar por isso? Preservativo. Nem preciso falar sobre aborto masculino, né… Mas vamos lá: não abandone seus filhos e suas filhas. Se você já tiver filhxs, ou pretende ter, saiba que ser pai não é só contribuir financeiramente ou estar presente apenas na hora de bagunçar e brincar. Não banque o amigo bonzinho, deixando para a mãe o papel exclusivo de formar. Cuide dos seus filhos e das suas filhas. Troque fraldas, dê banhos, cuide quando ficar doente, limpe a baba e o nariz, repreenda, ajude na lição, ouça, ensine, aconselhe. Seja um pai presente. Não discrimine seus filhos e filhas, não dê vantagens aos meninos, não controle excessivamente as meninas, não dê brinquedos diferentes, não castre sexualmente suas filhas, não fiscalize a roupa das garotas, não impeça que elas namorem, não incentive seus filhos a tratarem mulheres como objetos, e respeite a identidade gay ou trans de suas filhas e filhos.

10 – Responsabilize-se pela contracepção! Se você se relaciona sexualmente com mulheres cis, saiba que a obrigação de evitar filhos não é delas. Os anticoncepcionais interferem na regulação hormonal do corpo feminino, pelo que muitas mulheres não se sentem bem com seu uso, porque realmente causam efeitos colaterais danosos, ou simplesmente porque a mulher pode considerar essa interferência artificial uma violência biológica. Não é uma obrigação da mulher tomar anticoncepcional, ela pode simplesmente não querer fazer isso e ponto. Nesse caso, se você não deseja ter filhos, use preservativo – que também previne aids e dst´s. Não banque o moleque mimado, dizendo que “transar com camisinha não tem graça”, que “é como chupar bala com papel” e, depois, obrigue a mulher a tomar uma pílula mais agressiva ainda, que é a pós-coito. Quem faz isso, além de machista, é imaturo e cruel. Se um homem e uma mulher fazem sexo sem camisinha, ambos sabem as consequências que daí podem advir e as devem assumir em conjunto. Não é a mulher que tem que se virar com isso sozinha, ok?

11 – Sexo não é agressão! Nem preciso dizer que não é não, certo? Se uma mulher disser não, estiver muito bêbada e/ou drogada, dormindo… ou seja, se de qualquer forma não consentir expressamente, é estupro, mesmo que ela seja sua companheira ou uma profissional do sexo. E, só pra reforçar: nenhuma mulher quer ser estuprada, e meramente insinuar isso é o que de mais atroz pode haver na misoginia. Combata a cultura do estupro, começando pela linguagem. Nuca force a mão ou a boca de uma mulher para o seu pênis. Quando for fazer sexo com alguém, não bata, não aperte, não puxe o cabelo, não morda, não prenda, e não penetre vagina ou ânus, a não ser que haja expresso consentimento.  Ainda assim, é preciso ter cautela, pois pode haver vício nesse consentimento, devido à própria natureza de uma relação desigual entre homem e mulher. Então, a priori, busquemos relações mais simétricas. E, sim, é preciso conversar sobre sexo, e ter autorização para essas práticas. O melhor seria conseguirmos orientar nossas pulsões fora dos clichês machistas e dos papeis de gênero, porém, como muitas e muitos de nós ainda estão atados a isso, até mesmo para adotar uma posição sexual que implica subjugação, converse antes a respeito.

12 – Não reifique a mulher! Nunca trate as mulheres como objetos. Repudie  eventos como feiras de automóveis e motocicletas, em que as mulheres são expostas ao lado das máquinas. Não consuma propagandas como aquelas em que mulheres são vendidas ao lado de cervejas, desodorantes etc. Uma mulher não é uma coisa, então, não carregue uma mulher como se fosse um troféu ou chaveiro. Apresente-a para as pessoas com quem você cruzar, e a deixe livre passa socializar independente de você nos ambientes. Numa roda de conversa com várias pessoas, não ignore a presença das mulheres, dirigindo-se apenas aos homens. O mesmo vale para palestras, aulas, reuniões, mesas de bar etc. NUNCA suponha que uma mulher é menos capaz intelectualmente que homens ou que não pode realizar as mesmas tarefas, ainda que dependam de força física. Não pense que o corpo da mulher é um objeto na prateleira para ser consumido ou não por você. Então, numa festa ou balada, pare de olhar cada uma delas, apenas pensando “essa eu como; essa eu não como”, “caçando presas”. Quem te disse que elas estão à sua disposição para serem comidas? Só esse olhar já é uma violência, ok? Jamais pense que a sexualidade lésbica é um espetáculo para o seu deleite. Respeite o sexo e amor entre mulheres e saiba que você não foi convidado. Não opine sobre aborto. O corpo da mulher não é uma coisa que pertence a você, à sociedade ou ao Estado. Você não tem útero, então, apenas escute e apoie o que as mulheres têm a dizer sobre isso. Se você é gay, pare de dizer que tem nojo de vagina, isso é extremamente violento. Seja feliz como gay, mas pare de erguer um altar ao pênis, ao macho, a machos que amam machos como maior expressão da evolução humana. Falocentrismo é misoginia. Se você é hétero, não trate a mulher como um orifício, e aprenda a compartilhar prazer com outra pessoa subjetivada na relação sexual.

13 – Não seja um cafajeste! Não seduza mulheres apenas para obter sexo ou alimentar o seu ego. Se você pretende apenas fazer sexo casual, saiba que muitas mulheres também possuem essa intenção. Então, basta deixar isso claro, negociar os termos da relação, e compartilhar prazer. Inclusive, é muito saudável ter alguém em quem a gente confia e a quem a gente respeita para fazer sexo de vez em quando e manter uma boa amizade. Então, não tenha medo de manter contato com as mulheres com que você sai. Ninguém vai aparecer na sua porta de véu e grinalda por isso. Pensar que as mulheres sempre são carentes, frágeis e querem arrumar um marido é muito machismo. Não pense que você é o tal porque sai por aí “comendo” mulheres e sequer manda uma whatsapp no dia seguinte. Provavelmente, a maioria delas também só queria te comer, e você foi só um babaca incapaz de agir como uma pessoa adulta e honesta, esclarecendo suas intenções. Justamente por isso, não julgue mulheres que fazem sexo nos primeiros encontros, ou até mesmo com desconhecidos. Isso é um machismo tosco e piegas. Bem, se você acha que existe mulher para comer, e mulher para casar, nem devia estar lendo este texto, pois não dialogo com gente assim… Pare de fiscalizar a conduta (inclusive sexual) das mulheres. Se você quiser sexo, basta deixar isso claro, e não tratar o corpo da mulher como um orifício. Uma dica: melhore nas preliminares, porque o que mais tem no mundo é homem ruim de cama. Agora, se você promete amor e afeto a uma mulher para obter sexo, então, além de machista, você é mau caráter. Não precisa disso, moço! Não magoe pessoas voluntariamente. Melhore!

14 – Politize suas escolhas afetivas/sexuais! Gosto se discute sim! Vamos repensar isso? Você pode acreditar que prefere mulheres magras a gordas, ou homens másculos a afeminados por uma questão de gosto, mas isso está longe de ser verdade… Gosto não é simplesmente uma pulsão voluntária numa sociedade em que todos os parâmetros estéticos são dados pela indústria cultural para reproduzir o capital e a sociedade burguesa. Pense bem nisso. Para os hétero, preferir mulheres brancas, magras, sem pelos, e “femininas” faz parte da construção de uma sociedade eurocêntrica e racista, que fiscaliza o feminino para subjugá-lo. A magreza é um parâmetro estético extremamente difícil de ser alcançado, muitas vezes, antibiológico, para mobilizar o consumo na lógica do capitalismo. A indústria apresenta mulheres photoshop e isso domestica o desejo dos homens. Tudo isso também está atrelado à reificação da mulher, que deve ser uma boneca do prazer masculino, e à opressão de princesinhas caladas, submissas e perfeitinhas.  Os esquerdomachos, que se dizem tão revolucionários, só se apaixonam por barbies com camiseta do Che Guevara… Que tal politizar suas escolhas e começar a escolher parceiras pelo que oferecem enquanto pessoas? Gordas, negras, masculinas… E, para os gays, preferir homens brancos, musculosos, ricos, bem-sucedidos e másculos, além de racista e caudatário dos padrões artificiais inalcançáveis da indústria cultural, é  o culto ao macho winner na sociedade machista-capitalista. Essa predileção por homens não afeminados não é uma questão de gosto, mas uma negação do feminino enquanto algo poderoso e atraente. É a reafirmação de que o feminino é pior, inferior, feio, ridículo e fraco.  Gay, pense sobre isso… E viva a afeminada, a louca, a pão com ovo, a bicha, a bichinha, o viado, as travestis!

15 – Rompa com papeis de gênero opressores! Quebrar o binarismo é um excelente exercício de combate cotidiano ao machismo. Comecemos por coisas óbvias, como não dar coisas azuis e carrinhos para meninos, e bonecas e coisas rosas para as meninas. Não achem que há trabalho de homem, como ser piloto, ou de mulher, como fazer faxina… Todas as pessoas podem fazer todas as coisas… Não fiscalizem mulheres que se sentam de pernas abertas, enchem a cara, falam alto, e gritam muitos palavrões… Vão pra rua ao lado das vadias apoiar sua marcha e garantam sua integridade na luta quando elas mostrarem os seios. Depilem-se caso se sintam melhores sem pelos e admirem mulheres que gostam de ficar peludas. Apreciem a beleza do excesso de maquiagem ou da total ausência dela. Reconheçam a beleza da pessoa, esteja uma mulher de moletom ou mini saia, chinelo ou salto agulha… porque julgar mulheres que usam maquiagem e salto agulha também é machismo, ok? Respeitem mulheres que gostam de se embriagar ou que não bebem nada, que fumam ou não, que comem muito ou pouco… E se a mulher quiser mastigar de boca aberta e arrotar? Soltar pum? Se achamos feio porque faltam o charme e a elegância da burguesia, que os homens também sejam julgados e repreendidos por toda a sociedade ao fazerem coisas do tipo! Faço, então, aqui um chamado: homens, usem saia em dias e calor! Vocês verão o quão libertária pode ser essa básica ruptura com o binarismo… Saiaço! Gay ou hétero, não importa… Coloque um salto alto e saia por aí numa noite… Monte-se, faça uma maquiagem leve num dia, uma maquiagem drag numa festa qualquer… Aliás, usem base no dia-dia, corretivo, pó… é uma maravilha pra quem tem olheira, marcas na pele…  Façam as unhas se der vontade… Por que não? Coloquem espartilho, meia-calça, cinta-liga, calcinha… Aquendem a neca uma vez na vida! Homem, chore em público, bem alto, soluçando, abrace seus amigos, seu pai, seus irmãos, diga-lhes que os ama… Se for hétero, experimente dar selinhos em outros homens, ou beijos de língua, talvez… Diga que tem medo, que quer colo, que não gosta de ficar sozinho. Dance, rebole, requebre, desmunheque… Enfim, liberte-se do machismo!