Grampo

Foto de Thomas Hawk

Na sala. Toca o telefone.

– Pronto.

– Boa noite. Gostaria de falar com o Sérgio.

– Pois não, sou eu mesmo.

– Então, consegui o número do seu telefone para tratar de um serviço aqui em São Paulo.

– Ah, sim, conheço bastante gente aí de São Paulo.

– Certo. Você mora em Curitiba, não mora?

– Moro.

Bom, pensamos em combinar já para o próximo domingo. Caso você se interesse pagamos os custos de translado, pode ficar tranquilo.

– No domingo? Por acaso seria no horário do Fantástico?

– Não, não. É antes.

– Ah, então tudo bem.

– Além disso, pinta bastante jogo nas quartas-feiras também, qualquer coisa a gente te encaixa em algum se você quiser.

– Não sei se te ouvi muito bem. Você disse “jogo”? Achei que fosse um encontro de grandes líderes empresários ou uma reunião com magnatas da mídia.

– Sim, no fundo os campeonatos são isso mesmo. Mas acho que é cedo ainda para falarmos desse tipo de “negócio”, não sei se você me entende.

– Meu caro, não estou te entendendo.

 – Mas você não é juiz?

– Naturalmente que sou.

– E apita jogo de futebol há quanto tempo?

– Apita o quê?! Escute aqui, cidadão: eu sou juiz de direito. Juiz de Direito, ok? E me chame de “doutor”, por favor.

– Mil perdões, doutor! Eu não sabia. Devem ter me passado o número errado.

– De fato. É um absurdo. E que isso não se repita!

– Pode deixar, excelência, não vai acontecer novamente. Desculpe qualquer coisa. Boa noite e passar bem.

– Passar bem.

Desliga-se o telefone.

Do quarto, ouve-se a seguinte pergunta:

– Quem era, amor?

– Foi engano, meu bem.

– Ah, então corre que o Jornal Nacional já vai começar.