Confiança democrática

Foto de Camila F.

[Texto de Larissa Lotufo]

A confiança é um sentimento tão difícil de ser alcançado, quanto é difícil de ser explicado. O caminho inverso, todavia, nem tanto. Isso porque uma das características centrais da confiança é a fragilidade, a delicadeza: é como um grande castelo de cartas, exige tempo e paciência, mas se desfaz com um simples sopro. Imagine quanto esse sopro vira uma tempestade?

O Brasil vive uma dessas tempestades que está mexendo com a sociedade de em todas as suas esferas. Da madame high class até a margarida que cuida de nossas ruas, o assunto mais comentado é a reviravolta política que o Brasil vivencia. Essa tormenta não começou em 2016, com a possibilidade de processo de impeachment da presidenta Dilma, e sim nas eleições de 2002, quando Lula saiu vitorioso e levou o PT ao poder.

Aquela eleição foi um pacto criado entre sociedade e PT, foi a firmação da confiança do povo ao depositar os rumos da nação em um partido que há tempos tentava alcançar o poder usando como discurso a busca por mudanças. E as mudanças vieram, mas não na proporção em que foram prometidas. Isso causou um desconforto em meio à população brasileira e um sentimento de que aquele partido, visto como sinônimo da mudança, talvez não fosse tão diferente.

Não cabe a este texto discutir a complexidade da atuação política do PT ao longo de seus mandatos, mas é interessante fazer uma reflexão ponderada. Quando Lula governou, o Brasil passava por uma fase econômica favorável, que aliada a sua inteligência política pôde trazer avanços que superaram o patamar econômico e atingiram o social. Nesse contexto, vulgarmente diz-se que Lula governou para os ricos e para os pobres, já que todo mundo “saiu ganhando” nessa história.

Pegando uma carona nessa euforia positiva Dilma conseguiu ser eleita, conseguindo manter o poder nas mãos do PT. Mudanças continuaram a ser realizadas, mas eram cada vez mais difíceis de serem percebidas principalmente porque o Brasil iniciava a entrada em um período economicamente austero, seja no contexto interno ou externo. A imprensa e os partidos opositores perceberam isso e se juntaram para fazer das últimas eleições uma das mais acirradas da (recente) história democrática do país.

No fim das contas, a população entendeu que a permanência do PT no governo era a melhor solução, ainda que confiança entre povo e PT estivesse mais desgastada que fortificada. Essa foi uma decisão democrática, o que não significa que foi a vontade de todos, mas foi a decisão da maioria. Essa é a graça da democracia, é um sistema que nos obriga a conviver com as diferenças de opiniões e nos estimula a expor e a lutar por aquilo que acreditamos.

Mas toda essa ideia linda de democracia ainda não é bem aceita por alguns setores da sociedade, que descontentes com o resultado eleitoral querem deslegitimar o processo democrático através de manobras eticamente questionáveis.

Independente disso, o fato é que os descontentes com a prevalência da Dilma (e do PT) no poder conseguiram chegar ao ponto de votação do impeachment da presidenta. O argumento utilizado é de que a Presidenta é corrupta, embora ninguém tenha provado essa corrupção. E o contraditório é que os operadores dessa manobra são políticos descaradamente corruptos, como Eduardo Cunha (PMDB). Se isso não bastasse, têm-se os diversos problemas de cunho jurídico que o processo carrega com si, que são mais do que graves, pois, se até os direitos presidenciais estão sendo deixados de lado, imagine como serão tratados os nossos direitos? Provavelmente a resposta não é animadora.

Mas, mesmo nessa atmosfera de descrença e desilusão que muitos brasileiros se encontram: seja a descrença na melhoria do país, na credibilidade de seus governantes ou desesperança na melhoria do setor econômico; não devemos deixar de expor nossa crença nesse processo. Isso porque, no fim das contas, quem irá sair perdendo somos nós, o povo que precisa trabalhar de sol a sol para manter as contas em dia, que busca um futuro melhor entrando uma universidade e está tendo seu auxílio cortado devido à instabilidade política, ou os jovens, que (como eu) que não conseguem emprego fixo de qualidade porque o mercado está retraído e com ele as contratações. Essa tempestade política só agrava a nossa tempestade econômica.

Por esse e outros motivos, o impeachment da Dilma se mostra a pior saída para nós, o povo. Seja em perda em cidadania ao ter nossa democracia maculada, ou perda de qualidade de vida ao ter um país que vive uma instabilidade econômica que não irá reestabilizar com a entrada do Temer no governo, muito pelo contrário. O processo de votação do impeachment da Dilma já foi iniciado, mas isso não significa que está fora de nossas mãos: cabe a nós fazer barulho e mostrar como deve ser feita essa votação.

 

Larissa Lotufo é jornalista formada pela Unesp de Bauru e estudante de direito do primeiro ano da Unesp de Franca