Trocando em miúdos

Foto de Daniel Horacio Agostini

Eu avisei! É tudo que posso dizer e modestamente deixar registrado para a história da qual ainda sou testemunha mais ou menos direta, como tantos outros que ouviram ou não os meus avisos. No fundo, resta a mim ao menos a dignidade e a clareza de consciência de ter tentado fazer o que poderia ter sido feito: alertar que política não deve ser tratada como carnaval ou como final de copa do mundo, e que governo de unificação é só um eufemismo para “queremos mesmo é barrar investigações que chegarão a nós”.

Nos últimos meses, sempre com muita educação e respeito, ponderei sobre os problemas que temos enfrentado. Comentei, principalmente, sobre os perigos da deseducação política, da parcialidade exacerbada, da indignação seletiva e dos interesses ocultos por trás das soluções simplistas e milagrosas que nos foram oferecidas sob nomes bonitos como “flexibilização das relações trabalhistas”, “dinamizar a produção” e “gerar superávit primário a todo custo”. Saídas dessa ordem, reiterei inúmeras vezes, não dão conta de resolver da noite para o dia, como prometem, os problemas complexos e seculares que enfrentamos. Às opiniões rasas e raivosas que dominam a nossa ainda incipiente esfera pública eu contrapus análises ponderadas; às várias ofensas de conhecidos e desconhecidos, respondi com uma educação que, à risca, essas pessoas sequer mereciam. Mesmo assim, não me arrependo do meu tratamento cortês. No fundo, sempre pensei que os que gritam e berram só o fazem porque, de fato, não conseguem argumentar racionalmente. Não seria agora, justamente quando a serenidade na discussão política é mais necessária, que eu mudaria minha postura e me sujeitaria à barbárie dos que pensam e agem pelos parâmetros do senso comum ou do vox populi.

Contra o imediatismo das soluções simplistas e das propostas salvadoras, unificadoras, repletas de boas intenções, feitas por homens públicos insuspeitos de honestidade, e claramente endereçadas às pessoas que se dizem “de bem”, argumentei que as atitudes mais bárbaras e atrozes da história mundial e nacional são as pautadas nas melhores das intenções. O adágio popular, nesse caso, não mente, eu completava. Inúmeras foram as vezes também em que eu alertei para o fato de que é perfeitamente possível contar uma mentira elencando verdades aleatoriamente, e que a opinião geral é apenas a amplificação da opinião ou do desejo de um ou dois indivíduos. Agora percebo que de nada adiantou o que eu falei. Nada mesmo. Uma pena. Também pudera: tentei usar a racionalidade para falar a pessoas que estão acostumadas, e muito felizes, em pensar pelo senso comum, em seguir o seu inegável instinto de rebanho. Não poderia mesmo ter dado certo.

Também apontei que a desconfiança, longe de ser um defeito, é uma virtude que o indivíduo inteligente deveria e deve cultivar durante a vida, principalmente quando soluções rápidas para problemas complexos são apresentadas tão cinicamente, como temos visto nos últimos meses. Falei que só a dúvida sistemática e a exigência de provas é que nos previne de sermos feitos de otários por gente “de bem” que ganha a vida fazendo isso. Não fui ouvido. Afinal, quem daria atenção a alguém que desconfia de “pessoas de bem” e se mostra sempre tão cético? Justo num momento em que as pessoas querem se agarrar a qualquer esperança de unificação (ainda que falsa) eu vinha oferecer a elas minhas análises racionais e pautadas no ceticismo? Claro que nunca me ouviriam. No fundo, para o senso comum, é muito melhor uma esperança falsa de mudança do que esperança nenhuma.

Nos últimos meses, fiz um convite honesto ao pensamento, ao raciocínio, e não ao moralismo entranhado na nossa cultura. Mas percebi que propor a desconfiança e o pessimismo para um povo educado para a crença e o otimismo é mesmo uma empreitada frustrada, e uma tremenda perda de tempo. Que eu tenha sido ignorado (junto com outros que fizeram o mesmo), portanto, não surpreende. Afinal de contas, um povo que precisa de heróis e modelos de conduta só pode ser formado por pessoas de individualidade fraca, e incapaz de qualquer atitude que não seja a de obedecer a comandos. E indivíduos fracos não estão preparados para pensar sobre sua vida e os problemas que a afligem com a profundidade e seriedade necessária.

O que vemos agora é que, para não trair a sua natureza crédula e obediente, as “pessoas de bem” resolveram chamar a raposa para cuidar do galinheiro, porque assim lhes foi ordenado. Ou, trocando em miúdos, para ter certeza de que serei entendido pelo menos dessa vez, resolveram delegar ao bandido-chefe a tarefa de combater a corrupção que execram tão veementemente (embora também a pratiquem em escala menor no seu quotidiano). É claro que essa aventura do patriotismo de ocasião, levada a cabo por esse rebanho de engajados sazonais e capitaneada por políticos de índole duvidosa, custará muito caro. Ironicamente, esse pato terá de ser pago por todos aqueles que disseram que jamais o fariam. Talvez esteja aí a unificação do país tão celebrada pelos ensaios de discurso de posse que vazam aqui e acolá. Quando a fatura chegar, e ela chegará em pouquíssimo tempo, pelo menos poderei dizer, com um riso amargo de canto de boca, que eu avisei. Em alto e bom som.