Tchau, querida?

Foto de Camila Lara

Às vésperas de completar uma semana da votação pela admissibilidade do impeachment contra a presidente Dilma Rousseff no Congresso, podemos dizer que o sentimento não é o de justiça. E nem haveria de ser. Enquanto em 1992 depomos um presidente contra quem pesavam inúmeras práticas de corrupção, relacionadas com o esquema montado entre ele e seu tesoureiro de campanha, PC Farias, qual crime é atestado contra a presidente Dilma?

Claramente a presidente tem feito um governo desastroso. Sua falta de empatia e tato político, aliados a uma crise econômica drástica, agravam a situação de imobilidade do Brasil. Entre a parcela menos abastada da população, para qual os governos petistas sempre concentraram seus esforços políticos, há um mal estar evidente e que repercute diretamente no cidadão comum: encontrar emprego está mais difícil, fazer a compra do mês tornou-se mais cara, entre outras dificuldades sentidas no cotidiano de uma economia em crise.

Então, por que defende-la? Porque impopularidade e governo ruim não são características suficientes para derrubar a maior autoridade política do país, eleita dentro dos trâmites democráticos. Dessa forma, o que está em jogo não é uma mera defesa de Dilma, mas da legitimidade de sua presidência. Dá para imaginar a insegurança e imprevisibilidade que decorrem desse ponto de vista? Se configurado o impeachment de um presidente considerado probo, qual não seria o precedente deixado para os próximos mandatários da nação? Conseguiriam terminar o mandato ao primeiro sinal de crise e perda da base aliada?

Em tais circunstâncias, o impeachment deixará celeumas as mais diversas. Do ponto de vista das relações internacionais, o país tornar-se-ia mais desacreditado quando da sua capacidade de legitimar externamente a perenidade de suas instituições. No tocante à política externa, por exemplo, o país construiu na última década uma série de interlocutores privilegiados, que vão desde os vizinhos latino-americanos, simbolizados pela UNASUL (União das Nações Sul-Americanas), até os países africanos e asiáticos, representados pela comunidade BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). De que modo ressoaria uma substituição abrupta desse nível?

Diferentemente de 1992, a opinião pública está quebrada, de difícil captação e difusa complexidade – principalmente após a exposição nacional a que foi submetida a Câmera dos Deputados no dia 17/04, decisiva para atestarmos a qualidade dos que julgaram a chefe do Executivo. Em contraponto, a imagem pessoal de Dilma foi construída internacionalmente a partir da não conivência com a corrupção – lembram-se da “faxina ministerial” no início do primeiro governo?

Se o processo de impeachment contra Collor era possivelmente encarado como uma grande comunhão entre setores internos e externos, em nome de um novo florescer contra a corrupção, o de Dilma não consegue encontrar sequer uma base comum que unifique esses polos. O ambiente político que permitiu o impedimento em 1992 era de maiores certezas e mais objetivade do que o de agora – enfim, corrupção, lavagem de dinheiro e tráfico de influência depunham abertamente contra qualquer retórica que a propaganda presidencial viesse a sustentar. Já em relação a atual mandatária, prevalecem as subjetividades.

Há quem concorde que o governo Dilma é ruim e incompetente, sem que para isto apregoe sua derrubada. No sentido antagônico, há a parcela que vê na queda de Dilma o fim da era petista no governo, tão desgastado por sucessíveis casos de corrupção. Perpassando todos estes, estão os abertamente oposicionistas derrotados nas últimas eleições, que lutam pelo “tudo ou nada” no intento de tecerem um atalho ao poder. Por outro lado, há aqueles que creem, assim como eu, que a tentativa de destituição esconde interesses outros que não a retomada dos princípios da justiça e da ética.

Afinal, dada a atual configuração do Poder responsável pelo processo de impeachment, presidido por Eduardo Cunha e Renan Calheiros, como não sentir o forte odor que paira sobre nós?

Lucas Eduardo Silveira de Souza

Bacharel em Relações Internacionais pela Unesp, campus de Franca.