Previsivelmente imprevisível

Rainbow - Ritchie Blackmore's Rainbow FOC 12" Vinyl LP. Foto de flickr.com/vinylmeister

“Certa vez ouvi a Betty Davis dizer que você não é ninguém até ser difícil. Eu sou um grande fã da Betty Davis”. Com esse tipo fino de sarcasmo e atitudes normalmente intempestivas, Ritchie Blackmore, que completou 71 anos no último dia 14 de abril, construiu uma reputação que não raro o coloca no grupo dos grandes anti-heróis do rock. Famoso por ser previsivelmente imprevisível, imagem que ele mesmo cultivou durante a carreira, o fato é que Blackmore é imbatível como compositor e instrumentista. Foi ele, por exemplo, o primeiro guitarrista a enxergar na música erudita uma série de caminhos para escapar dos clichês do chamado hard rock.

Blackmore começou sua carreira como músico de estúdio e, em 1968, ajudou a fundar o Deep Purple, banda inglesa da qual fez parte em dois períodos distintos: 1968 a 1975, e 1984 a 1993. Enquanto membro do Deep Purple, Blackmore co-escreveu algumas das músicas mais icônicas da história do hard rock, como “Wring that Neck”, “Speedy King”, “Bloodsucker”, “Lazy”, “Pictures of Home”, “Child in Time”, “Strange Kind of Woman” e “Smoke on the Water”.

Às influências do blues rock que o Deep Purple recebeu de bandas como Jimi Hendrix e Cream, Blackmore adicionou doses generosas de música erudita, com progressões e frases claramente inspiradas em peças de compositores como Bach, Mozart e Beethoven. Exemplos dessa mistura entre hard rock e música erudita em composições do Deep Purple incluem “Fools”, na qual Blackmore busca reproduzir a sonoridade de um violoncelo na guitarra, “Highway Star”, com seu solo de guitarra inspirado em progressões típicas das peças de Mozart, e “Burn”, cujos solos de guitarra e teclado são baseados em progressões em quarta, características da música barroca.

Em 1975, quando saiu do Deep Purple pela primeira vez, Blackmore fundou o Ritchie Blackmore Rainbow, nome que foi abreviado para Rainbow a partir do segundo disco da banda. À frente do Rainbow, ele intensificou suas experiências e pesquisas das relações entre hard rock e música erudita, o que resultou em faixas como “Spotlight Kid”, “Black Masquerade”, “Hall of the Mountain King”. Além dessas, faixas instrumentais como “Difficult to Cure”, “Vielleicht Das Nachste Mal (Maybe Next Time)” e “Weiss Heim” são estruturadas sobre uma sofisticada mistura entre tradições musicais aparentemente díspares, como a música erudita e o hard rock, na qual Blackmore foi pioneiro.

Com sua intempestividade e composições refinadas, Blackmore construiu a imagem do músico que nunca faz concessões quanto à sua arte e suas ideias. Ele é daqueles poucos roqueiros que não ser furta ao desafio de caminhar sobre a linha tênue entre autoconfiança e arrogância. Extremismos à parte, o fato é que Blackmore pertence ao seleto grupo de guitarristas que possuem uma identidade musical absolutamente característica.