A língua morta do presidente provisório

Charge de Samuca para o Diário de Pernambuco.

O governo provisório de Michel Temer mal começou e já tem pelo menos três traços identitários fundamentais: sua eminência parda é Eduardo Cunha, responsável por pelo menos quatro indicações de peso, o alardeado ministério de notáveis não passou de uma grande farsa para enganar incautos e seu idioma oficial é uma variante bacharelesca do português que cheira à naftalina e mofo. É sobre esse último que vou discorrer mais detidamente, já que os dois primeiros aspectos são bastante óbvios até mesmo para as pessoas de boa vontade.

Em seus dois grandes pronunciamentos à nação, no discurso de posse e na entrevista estéril concedida ao fantástico recentemente, ouvimos um Temer incapaz de dissimular sua gigantesca dificuldade de se comunicar com a nação que governa interinamente. Não que ele se importe com isso, é bem verdade, uma vez que não parece ligar nem mesmo para o valor do voto popular. Mas é no mínimo assustador, e sintomático de suas políticas públicas, que ele nem sequer faça um esforço mínimo de falar de modo claro e acessível à população que o ouve. Seria puro desprezo pelo que o povo pensa dele e de suas políticas retrógradas, ou simplesmente a prepotência de achar que seu governo interino não precisa, de fato, se preocupar com aqueles a quem cinicamente se dirige?

Se os discursos de Dilma eram sofríveis por conta da sua segmentação capenga das frases, os de Temer são sofríveis por serem entulhados de inversões sintáticas cafonas, bem como por mesóclises anacrônicas e despropositadas. Esses são artifícios típicos dos maus poetas e daqueles oradores que precisam esconder sua vacuidade reflexiva sob o escudo da fala empolada e impenetrável. E Temer é as duas coisas. Ou seja, se há uma coisa que essencialmente não mudou é que a comunicação do governo com a população continua precária. Só que, dessa vez, a população não percebe isso. O distanciamento entre orador e público é acentuado pelas falas bacharelescas de Temer, o que diminui ainda mais as condições do eleitor em geral de perceber o óbvio: Temer não sabe o que fala e está perdido. A população que será esmagada com o trator neoliberal de Temer, que promete desvincular gastos mínimos constitucionalmente obrigatórios com saúde e educação, áreas historicamente massacradas pelos já precários investimentos governamentais, tem até elogiado essa precariedade de ideias travestida de maneirismo linguístico. Não há fundo para esse poço de ignorância.

De fato, Temer e vontade popular não cabem na mesma sentença, por mais que malabarismos retóricos possam ser feitos. Segundo o Datafolha, míseros 1% dos eleitores votaria nele para presidente em uma eleição democrática tradicional. Para efeitos de comparação, se tivesse disputado a última eleição como candidato à presidência, Michel Temer terminaria empatado tecnicamente com candidatos folclóricos e inócuos como Pastor Everaldo, Eduardo Jorge e Levy Fidelix. Como Temer não tem sequer o Aerotrem para apresentar como proposta, tampouco carisma e empatia com as massas, o único jeito para chegar à presidência foi pelo atalho farsesco e pelo conluio político rasteiro que o próprio Romero Jucá, um dos homens fortes de Temer e articulador maior desse governo interino, descreveu didaticamente nas gravações publicadas há poucos dias. Como consequência do vazamento, Jucá teve de se licenciar do ministério “por livre e espontânea vontade”, embora tenha de ter sido exonerado do cargo para voltar ao Senado. No bacharelismo do governo Temer, isso significa que Jucá caiu feio ou, se você preferir, foi rifado por Temer, que perde o amigo, mas não perde o governo. Afinal, de rasteira o Temer entende bem. A queda de Jucá também significa que o governo interino já sofreu seu primeiro grande revés em pouco menos de duas semanas. Trocando em miúdos, para o povo entender, esse circo político todo foi só para proteger bandido. E, aparentemente, deu certo. Você que é patriota e que apoiou tudo já pode ficar com vergonha, se é que ainda tem alguma. Você foi avisado. E nem pode reclamar que foi em discurso bacharelesco. Essa cafonice é coisa de gente da laia do presidente interino.

Mas, voltando às falas empoladas de Temer e sua equipe, algumas pérolas merecem especial destaque. Uma delas é a fala em que Temer afirma estar em busca de representantes do “mundo feminino” para ocupar vagas importantes no seu governo interino. Será que não tinha nenhum assessor minimamente sensível ao linguajar popular para alertar o presidente de que “mulher” seria uma escolha vocabular muito mais feliz e adequada nesse contexto? Se bem que, a julgar pela composição dos ministérios, Temer ainda não percebeu que as mulheres se emanciparam, conquistaram direitos civis e são muito mais do que belas, recatadas e do lar. Ele ainda não percebeu que as mulheres tem competência infinitamente superior à de homens como ele para ocupar cargos de destaque em qualquer que seja a área. Uma pérola análoga coube ao ministro chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, que afirmou que “tentamos buscar mulheres, mas não foi possível”. Mas será que vocês procuraram direito, ministro? Ou ainda: será que tiveram interesse em procurar? Evidentemente que não.

Insuspeito de legitimidade, carisma ou representatividade, o governo temporário de Temer segue seu caminho de assaltos a direitos fundamentais dos cidadãos brasileiros, impondo um retrocesso que se materializa em políticas severas de austeridade que prometem atropelar os trabalhadores e os mais pobres com o potencial destruidor de um tanque desgovernado. E tudo isso vem embalado por uma imagem de falsa eficiência e por clichês retóricos como “não pense em crise, trabalhe” ou “Brasil: ordem e progresso”. Esses são clichês que apelam fortemente ao moralismo caolho de uma população que sequer consegue decodificar o vocabulário pedante da língua morta falada pelo manhoso presidente provisório, linguajar que é uma espécie de elo perdido entre o latim clássico e o português do século XVII. Por traz desse discurso embolorado, falsamente unificador e apelativo à estreiteza reflexiva dos devotos da meritocracia e daqueles que se convenceram de que são empreendedores, se escondem perversas políticas públicas de supressão de conquistas sociais e de revogação de direitos constitucionalmente adquiridos a duras penas. Temer pode até “falar bonito”, como diz o senso comum diante de discursos abarrotados de preciosismos linguísticos. Mas não há nada de belo nas medidas que o seu governo pretende implantar.

O mandato tapa-buraco de Michel Temer, que já mostrou seu descontrole ao bater a mão na mesa e dizer que sabe lidar com bandido, é o governo do embuste político. É a gestão do recuo covarde, do retrocesso desavergonhado, da chantagem política barata, do compadrio rastaquera, do conchavo despudorado e dos acordões desfaçados com o legislativo e com o judiciário para livrar a pele de corruptos graúdos. Tudo isso permeado por uma flagrante tentativa de barrar descaradamente as investigações que combatem a corrupção sistêmica no país. É o governo da volta a um passado infecundo, tenebroso, cerceador de liberdades individuais e que, se fôssemos um país sério, já deveria estar devidamente sepultado. Mas somos só o Brasil, pelo jeito. A gestão interina de Temer é um governo guiado por um arremedo de conservadorismo e por um neoliberalismo requentado que voltou para terminar o serviço não concluído na década de 1990. É uma gestão que promete o avanço enquanto implanta o retrocesso. Em suma, é a cara do PMDB. Não posso concordar com tamanho paradoxo político. Nesse sentido, a língua morta falada pelo presidente provisório é só a expressão chinfrim de um governo nada promissor e que pretende, com as bençãos de bancadas notoriamente corruptas, como a evangélica, a do boi e a da bala, jogar na lata do lixo os direitos duramente adquiridos pelos cidadãos, principalmente das mulheres, dos negros, e da comunidade LGBT. Em conclusão, a língua morta de Temer, e a sua presidência de porta dos fundos, anunciam que o Brasil, de fato, tem um longuíssimo passado pela frente. E cada minuto de silêncio sobre essas violências que se impõem é mais um passo largo rumo a uma escuridão política e social que é inaceitável no século XXI. Inaceitável!