Você é conivente com o estupro

Foto de Ribs. (facebook.com/matheusribsoficial)

Esta semana, uma adolescente foi drogada e estuprada por 33 homens no Rio de Janeiro, no mesmo dia em que um estuprador confesso era recebido com honras pelo Ministro interino [golpista] da “Educação” em Brasília. O estupro coletivo foi filmado e viralizado por todos os smartphones do Brasil. Este caso é tão chocante que todas as minhas amigas feministas relataram chorarem e sentirem náuseas. Foi suficiente para nos derrubar como um golpe final após o golpe maior que sofremos com a derrocada da democracia. Saber de um estupro é atroz… de trinta e três, na mesma vítima de 16 anos, vulnerável e desacordada, é insuportável. Mas, talvez, o que mais nos massacre seja o fato de que há um vídeo. A gravação dos atos de violência extrema deixa bem claro o quanto aqueles homens têm orgulho do que fizeram. Do mesmo modo, o punhal se aprofunda em nosso peito, quando sabemos que as pessoas que receberam o vídeo, trataram-no como mais uma fonte de entretenimento virtual… Possivelmente, riram, excitaram-se, masturbaram-se, ou apenas curtiram o deleite sádico de quem gosta de receber e espalhar fotos de acidentes e corpos desfigurados no whatsapp. Se o crime em questão fosse um homicídio, seria difícil imaginarmos que os assassinos filmariam sua conduta e espalhariam o vídeo, orgulhosos, nas redes sociais… também não seria razoável concebermos que os receptores deste material virtual o propagariam, deleitosos, ao invés o de encaminhar imediatamente à polícia. Isso só acontece devido à cultura do estupro.

O termo “rape culture” foi usado, pela primeira vez, na década de 1970, pelas feministas estadunidenses, para evidenciar que a sociedade fomentava a ocorrência de estupros ao culpabilizar a vítima e naturalizar a conduta dos estupradores. É essa cultura que possibilita algo tão absurdo como estupradores filmarem seu crime e divulgarem o vídeo com orgulho, assim como as pessoas que o receberam propagarem esse tipo de material. Se você recebeu este vídeo e o replicou, você é conivente com o estupro, o que não é nada anormal em nossa sociedade. Quando Alexandre Frota confessou num programa de entrevistas na TV aberta ter estuprado uma ialorixá, ninguém se chocou. As autoridades não tomaram providência alguma. O entrevistador era Rafinha Bastos, que já disse, também na TV aberta em rede nacional, que “mulher feia deveria agradecer ao estuprador pelo favor” e que “comeria Vanessa Camargo e seu bebê juntos” quando ela estava grávida. Se você gosta de Rafinha Bastos e acha graça de suas piadas (assim como de Danilo Gentili), você é conivente com o estupro. A plateia e o entrevistador caíram na gargalhada. Se você não se indignou com a confissão de Frota, você é conivente com o estupro. Há que se salientar que, nesse caso, além da cultura do estupro e da misoginia, estavam implicados também o racismo e a intolerância religiosa fundamentalista, alguns valores que sustentam esse golpe que sofreu nossa democracia. Não é à toa que esse sujeito, estuprador confesso, além de nada sofrer criminalmente após confessar tal atrocidade e ser ovacionado às gargalhadas, ora, é um consultor do novo projeto educacional do Brasil.

Frota foi ao MEC para levar o “Projeto Escola do Futuro”, que, na realidade, significa um retrocesso do sistema de ensino à Idade Média. O nome do projeto tão eivado de cinismo não é uma novidade na conduta dos algozes malévolos que assolam este país – os navios negreiros, também chamados de “tumbeiros” de tanto que matavam as pessoas que transportavam, tinham nomes como “felicidade” e “esperança”. Assim ocorre com a escola do futuro, que nos levará a um passado sombrio, pois sua proposta é proibir que as professoras e os professores politizem o ensino. Na verdade, isso quer dizer que o ensino jamais poderá ser crítico e reflexivo, e estará proibido o uso de autores considerados “comunistas” (outrora chamados de subversivos). Ademais, está no pacote a proibição do debate de gênero, que tanto defendem os fundamentalistas religiosos golpistas. Trata-se da proibição definitiva de um ensino emancipador propugnado por Paulo Freire, o que, inclusive, foi reivindicado nos atos golpistas pela direita perversa deste país. Esse sujeito, Alexandre Frota, representa exatamente o imaginário desses brasileiros e dessas brasileiras que apoiam o golpe. Ele tem legitimidade para ser o portador dessa propostas para a Educação no país. Aliás, é justamente a ausência de educação em gênero que sustenta todas as formas de violência contra a mulher (estupros, lesões, assassinatos etc), e contra gays, lésbicas e pessoas trans, que são espancadas e mortas todos os dias. As religiões que lutaram para proibir o que chamaram de “kit gay” apoiam essa escola do futuro e desejam a nossa morte. Se você é contra educação de gênero nas escolas, e/ou religiosx fundamentalista, você é conivente com o estupro. Está tudo conectado: Frota, escola do futuro, estupro coletivo filmado e viralizado. Este é o Brasil do golpe. Certamente, se você é golpista (se apoiou o impeachment), você é conivente com o estupro.

Ainda não entendeu a correlação? Um dos principais motores do golpe foi a rejeição pessoal à figura da Presidenta Dilma. Começando pela resistência dos machistas em aceitarem o termo “Presidenta”, antiquíssima forma flexional em gênero da língua portuguesa. Cínicos e/ou ignorantes, como sempre, argumentaram que essa flexão não existia, como se advogassem o purismo da língua. Obviamente, seu argumento é falho, pois a forma sempre existiu, e o que estava por trás dele jamais foi a flor do lácio, e sim o inconformismo em ter uma PresidentA. Para os misóginos, a dor de ter uma mulher no posto mais alto do Estado, chefe do Executivo, chefe das forças armadas, Presidenta da República, sempre foi insuportável. Isso, associado ao fato dela representar um partido historicamente de esquerda (embora seu governo nunca o tenha sido) e a classe trabalhadora, é o verdadeiro motivo do impeachment, junto com a entrega do pré-sal e a interrupção da lava jato pelos verdadeiros corruptos.

O machismo dos antagonistas de Dilma jamais se conteve. Em todas as críticas, que deveriam ser direcionadas à sua gestão se fossem idôneas, a misoginia sempre apareceu. “Vaca!” “Vagabunda!””Puta!” – são os impropérios preferidos dos paneleiros.Em plena solenidade de abertura da Copa Fifa: “Ei, Dilma, Vai tomar no cú!” Num país em que se manda uma chefe de Estado “tomar no cú”, a cultura do estupro impera gloriosa. Jamais isso ocorreria se o Presidente fosse homem, por mais odiado que fosse. Isso só acontece porque o Brasil é machista, e a direita brasileira é machista e violenta. Ainda, em qualquer nação que valorizasse a democracia, isso também jamais ocorreria, pois se sabe que a pessoa chefe de Estado é representante democrática do próprio Estado. Não se conceberia ofender a pessoa privadamente para fazer uma crítica à sua gestão. Isso só acontece num país que não valoriza a democracia e é machista. Se você alguma vez já xingou a Presidenta de impropérios misóginos, você é conivente com o estupro.

Além disso, houve aqueles adesivos para automóveis, em que a figura de Dilma aparecia de pernas abertas e a entrada do tanque de combustível simbolizava sua vagina, para que, quando o carro fosse abastecido, o motorista tivesse a deleitosa sensação de que estava promovendo o estupro da Presidenta. Todos que odeiam Dilma, odeiam-na, inclusive, ou principalmente mesmo, por ser mulher. O golpe é uma pauta do machismo. Tanto é que Temer extinguiu o Ministério de Direitos das Mulheres e não colocou nenhuma mulher em seu governo, ao passo que a revista mais golpista do país fez questão de deixar claro que o lugar de mulher é dentro de casa. Dilma, mulher forte, guerrilheira, intelectual, sem marido, pouso feminina e bonita segundo os padrões opressores não serve pra sociedade estupradora que temos. Mulher tem que ser bonita, nos padrões de beleza midiáticos, e ficar em casa, submissa ao seu marido, como a primeira-dama que a direita tanto adora. Outro viral de whatsapp que denota isso é um meme com a foto da bunda de Marcela Temer e os dizeres: “um homem que come essa mulher não vai querer fuder com o Brasil”. Pois bem… Esses são os golpistas – coniventes com o estupro.

Eis a reificação da mulher e a cultura do estupro mais uma vez associadas ao golpe. Mais explícito que isso, somente o discurso de Jair Bolsonaro. Ao votar a favor do impeachment (golpe), Bolsonaro homenageou o torturador de Dilma, o General Ustra, que ficou famoso por estuprar as mulheres que torturava e introduzir ratos vivos nas suas vaginas. Possivelmente, nossa Presidenta passou por esse horror para lutar pela democracia e Jair fez tal homenagem sabendo que golpeava ambas: Dilma e a ordem democrática. Homenageou um estuprador para votar a favor do golpe. Se você vota em Bolsonaro, você é conivente com o estupro. Se você reconhece o governo Temer, você é conivente com o estupro. Golpistas são sempre coniventes com o estupro. Essa gente que elege Bolsonaro, que ri de Frota, Bastos e Gentili ou que acha que mulher de verdade é Marcela Temer, é exatamente o que sustenta a cultura do estupro. Uma sociedade patriarcal, marcada pelo machismo, acredita que o homem é superior à mulher, que o lugar da mulher é dentro de casa, que mulher deve se dar ao respeito, que existe mulher pra comer e mulher pra casar etc. Isto é a cultura do estupro.

Quando uma mulher é vítima de violência de gênero, uma sociedade misógina acredita que ela mereceu. Nesse imaginário, a mulher que sofre violência doméstica gosta de apanhar, a mulher que não se submete ao homem merece ser colocada no seu lugar, a mulher que não atende às expectativas conservadoras (como Dilma) tem que ser violentada e exterminada. Do mesmo modo, a mulher que não se comporta estritamente castrada pelo patriarcado como uma “mulher pra casar”, merece ser estuprada : se beber, merece ser estuprada; se usar roupa curta, decotada ou justa, merece ser estuprada; se sentar de perna aberta, merece ser estuprada; se falar e gargalhar alto, merece ser estuprada; se não souber cozinhar, merece ser estuprada; se andar sozinha na rua, merece ser estuprada; se frequentar festas, merece ser estuprada; se for feia, merece ser estuprada; se for muito bonita e “provocante” e não for recatada, merece ser estuprada; se não for do lar, merece ser estuprada; se for Presidenta, merece ser estuprada.

Além de divulgar e sentir muito prazer com um vídeo no qual uma menina dopada e indefesa é estuprada por trinta e três homens, os apoiadores e apoiadoras dos estupradores foram às redes sociais se manifestar, dizendo que foi a vítima que provocou o estupro. Disseram que a culpa era da garota de dezesseis anos. Por que? Algum dos motivos acima… Porque usou roupas assim ou assado, foi a uma festa, bebeu… Esta é uma sociedade estupradora, que sempre vai buscar um motivo para sustentar que a culpa da violência é da mulher, porque, na realidade, numa sociedade como a nossa, para merecer ser estuprada, basta mesmo ser mulher. Pode acreditar, leitora, que, se um dia você for estuprada, a culpa será sua, e não adianta ter cuidado com a roupa que veste, pois será o lugar por onde andou… se tiver cuidado com os locais por onde anda, será seu perfume… se não usar perfume, será seu sorriso… se não sorrir, será seu cabelo… E assim infinitamente, porque a verdade é que, nesta sociedade, você sempre merecerá ser estuprada pelo exclusivo fato de ser mulher. Os homens, superiores, estão apenas tomando o que lhes é de direito (como o Governo Federal).

Nunca é culpa deles. Se o estuprador for o marido ou companheiro, então… não é estupro, porque a mulher tem que ser usada toda vez que seu dono desejar. Se a mulher sofrer violência, é porque algo de errado ela fez: desviou-se de seu papel de objeto submisso – lugar ao qual um bom estupro é capaz de a colocar de volta. Vem sempre aquele discurso: “essa história está mal contada”… “alguma coisa ela fez…” Tanto é que há muitos discursos de que o problema das feministas é falta de “rola”; de que um bom estupro seria capaz de curar uma “feminazi”. Como se “nazi”, ou seja, violenta, fosse uma mulher querendo direitos humanos, e não um idolatrado Jair Bolsonaro. Um “Vai tomar no cú!” coloca a mulher de volta ao seu lugar. Um estupro é mais eficiente. Se você acha que a mulher é culpada por sofrer violência, você é conivente com o estupro. Mas também, se você acha que a mulher tem que se comportar adequadamente, você é conivente com o estupro. Se você acha que existe mulher para casa, você é conivente com o estupro.

Em todos os casos de estupro, a mídia sempre noticia assim: “Mulher alega ter sido estuprada”, “mulher diz que foi estuprada”, “jovem teria sido estuprada”, “menina supostamente foi estuprada” etc., e nunca “Mulher foi estuprada”, afinal, para o patriarcado, as mulheres são loucas e passionais, e sempre saem por aí inventando que foram estupradas para se vingar dos homens após sexo consentido. Pasmem: mesmo neste caso, em que o país todo assistiu ao vídeo do estupro, quando não é apenas o relato da vítima, toda a mídia noticiou o fato como “teria sido estuprada”. Se você é jornalista e redige manchetes de estupro assim, você é conivente com o estupro. Se você é leitorx de veículos assim e não se incomoda com esse discurso, você também é conivente com o estupro. Ora, se num estupro filmado, duvida-se que a mulher tenha sido vítima de violência, imaginem quando é apenas a palavra dela contra a palavra do estuprador. Todos os dias, além de serem estupradas e sofrerem as violências mais horrendas, as mulheres ainda são tratadas com desconfiança quando têm a coragem de procurar ajuda. X policial militar que atende a ocorrência, x escrivão, x delegadx, x peritx, x estagiárix, x promotorx de justiça, o juizx, x escrevente: todo mundo duvida do seu relato o tempo todo ou mantém o pensamento “alguma coisa ela fez para merecer isso”. Esse é o mesmo sistema de justiça que rasgou a Constituição federal para perpetrar o golpe, são instituições putrefatas,compostas pela gente mais ignóbil que há neste país. Se você trabalha no sistema de justiça e duvida do relato de vítimas de estupro, você, é conivente com o estupro.

Numa sociedade tão doente a ponto de ter Alexandre Frota como consultor de educação, Eduardo Cunha conduzindo um golpe contra uma Presidenta honesta, Michel Temer alçado à Presidência para parar uma operação anti-corrupção num golpe que teve como pretexto a família e a moralidade, que ri das piadas de Rafinha Bastos de Danilo Gentili, que homenageia torturadores, que idolatra Jair Bolsonaro, que está tomada pelo fundamentalismo neopentecostal em nome de deus, que quer a volta da ditadura, que deseja o extermínio e o sofrimento de mulheres, negros, indígenas, LGBTT, a violência é a regra. O pís do golpe é o país do ódio, onde só se concebe violência.

Por isso, as pessoas confundem sexo com estupro. Esta sociedade podre acha que sexo e estupro são a mesma coisa: não tem a capacidade de compreender que estupro é apenas violência, enquanto sexo é troca de prazer com afeto e respeito. Esta é uma sociedade sádica, que só sabe gozar ao impingir dor, ao achacar, torturar e submeter. Mas não se enganem com esse discurso de que aqueles trinta e três estupradores são “doentes”. Eles não são nada “doentes”, ou “anormais”, ao contrário: são perfeitos exemplares de uma sociedade como a nossa. Eles são você, que odeia a Dilma, que ri de Bastos, que vota em Bolsonaro. Eles são vocêsque acham que mulher merece apanhar e que existe mulher pra casar. Eles são você, que faz piada de mulher, que trata mulher como objeto, ou que reconhece o governo Temer. Não há nada de louco nesses estupradores. Eles são você que replicou o vídeo que eles gravaram, que riu, que se deleitou. Você que ficou com tesão, porque não sabe a diferença entre estupro e sexo, como toda esta sociedade.

Os estupradores não são loucos nem doentes. A doença é você também. Doente está o Brasil. Anormal, neste contexto, sou eu, que me rasgo de dor ao presenciar tanto horror e violência, são minhas companheiras feministas, e todos os meus camaradas que lutam contra esse golpe. No Brasil de 2016, normal é o golpista, normal é o estuprador. É você! “Cidadão de bem”, que idolatrou o pato e pixuleco, que bateu panela, que adora os Bolsonaros, que é crente fundamentalista, que odeia o PT, que tem orgulho hetero, que ama o Moro, que acha que toda mulher merece ser estruprada se não for mulher de verdade, bela, recatada e do lar. Quem estupra é o estuprador, mas quem possibilita o estupro é você, silente, atroz, indiferente ou perversx. Você é a fonte de toda violência e não se iluda fingindo estar em choque: você é conivente com o estupro.