A banalização do mal

Foto de Ribs (facebook.com/matheusribsoficial)

 

Nos últimos dias, tomamos conhecimento do estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos cometido por mais de 30 homens. O fato veio à tona após um dos rapazes compartilhar o vídeo da garota em uma rede social. Perante o corpo ensanguentado e ainda desacordado, feito gesto heroico, @michelbrasil7 expõe sarcasticamente o triunfo frio de seu crime. Não fosse o cometimento do ato cruel por si só, a publicização do crime viria a marcar o desfecho de uma irrefreável autorrealização.

Esse é apenas o último dos casos mais extremos de que se tem relato. No mundo abstrato e aparentemente anônimo da internet, o gozo recai no compartilhamento de agressões, intolerâncias, discursos de ódios e toda espécie de atitude que não resistiria fora do mundo das sombras. De momentos inofensivos a barbáries cotidianas, a necessidade da exposição em massa é um registro transversal dos nossos tempos. Embora casos como esses recebam uma avalanche de reprovações, que propiciam até mesmo a sua denúncia às autoridades, há milhares de compartilhamentos e comentários que demonstram conivência e apoio à barbárie.

O que faz alguém compartilhar conteúdos reprováveis, quando não criminosos, a puro gosto da espetacularização alheia? Seria o resultado do entretenimento causado? Ou mesmo um sinal de profunda indiferença pelo outro? Ainda sem respostas para o que acontece aqui e agora, temos a constatação de que a internet é hoje tomada pela superexposição de anônimos e pelo bombardeio inconsequente de informações. Antes restrita às fontes oficiais da imprensa, a tarefa de gerar e gerir informações no mundo contemporâneo está à disposição de qualquer perfil em redes sociais, potencializando diversas variantes. Esse processo de tornar o excepcional ordinário, por meio da repetição em cadeia, corrobora para a banalização do mal. Por outro lado, paradoxalmente, é essa mesma instantaneidade que tem propiciado a difusão dos debates sobre a cultura do estupro.

Claramente, são contextos e épocas diferentes daquela que propiciou à Hannah Arendt o objeto de uma das mais importantes teorias filosóficas de todos os tempos, mas são muitas as ocasiões em que ela é lembrada para dar sentido ao que é sem sentido: os colapsos morais da humanidade. A banalidade do mal, expressão famosa cunhada pela filósofa alemã de origem judia, pressupõe que até a pior das crueldades pode ser cometida pelo maior dos medíocres (em sua acepção de comum). O pior mal é aquele cometido por ninguém.

A elaboração teórica partiu da análise do julgamento de Adolfo Eichmann, um oficial nazista que foi responsável pela operacionalidade de milhares de assassinatos durante o regime de Adolf Hitler. Arendt assinalava que a motivação do cometimento de seus atos não era fruto de uma ruindade originária ou de desvio de caráter, mas sim da presunção de cumprimento de uma ordem, dentro da burocracia estatal do nazismo. Em outras palavras, o mal era de tal forma corriqueiro que fora incorporado como algo extremamente trivial; cotidiano; normal.

O amplo acesso às redes sociais, associada a uma crescente popularização das funcionalidades de um smartphone qualquer, tem tornado o mundo virtual um espaço de ninguém; ambiente que relativiza a crueldade, propaga o ódio e expõe indivíduos a uma imensa corte popular. Sob o pretexto de uma inofensiva opinião, a qual pensa que tudo pode no exercício de sua liberdade expressiva, estão aí propagados a castração de nordestinos, o linchamento de marginalizados, a apologia ao estupro e a propagação da violência de gênero contra mulheres, a expulsão de cubanos, a morte a homossexuais etc. O mal banalizado à velocidade de alguns cliques.

O elo entre a sociedade totalitária descrita por Arendt e os dias atuais não está na presença de campos de concentração ou na perseguição e morte a judeus, mas na desestabilização da empatia social e na naturalização da violência. Como resultantes desse processo, o recrudescimento da intolerância e a propagação de comunidades de ódio aparecem, dessa vez, sob formato virtual, extrapolando seus resultados ao mundo prático, real e material. Não se trata de absolver os responsáveis por seus crimes (nem Arendt sugeriria o mesmo em relação a Eichmann), e nem de propor uma equiparação ingênua entre a sociedade totalitária de Hitler e as atuais. Trata-se antes de um alerta, um grito urgente, sobre um fenômeno maior que tem nos descapacitado dessa nossa habilidade de nos vermos enquanto coagentes da degradação social.

Tão repugnante quanto presenciar situações de violência é a indiferença a que estas estão submetidas no dia-a-dia das redes sociais. Essa mesma falta de consciência sobre a dimensão de seu ato levou o próprio criminoso do estupro a postar e compartilhar a agressão que depunha abertamente contra si. Prova de que o mundo instantâneo alterou nossa percepção sobre o aceitável e o inaceitável; a intenção e a conivência; o bem e o mal; exigindo de nós cada vez mais a observância de postura ética e a revitalização de nossa sensibilidade social.